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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sapos, Príncipes e Outras Perdas de Tempo

Vamos combinar uma coisa: sapo não vira príncipe. Nunca virou. Se você passar a vida beijando a lagoa inteira, o máximo que vai conseguir é um gosto de lama na boca e um lugar cativo no brejo, cercada de moscas. Tem quem goste, claro. Tem gente que faz disso uma carreira. Sinto informar, mas quem nasce para o brejo não chega ao palácio. Se você quer um príncipe, saiba que eles não frequentam águas paradas. Príncipes circulam, falam três idiomas, entendem de vinhos e viajam para lugares que você nem sabe pronunciar o nome. Têm brasão, carro importado e apoiam causas nobres na ONU. É outro mundo. Mas cuidado: se você quer apenas o título, você não é uma romântica, é uma caça-dotes. E classe, minha querida, não é vírus; não se pega por convivência. Ou você herda, ou conquista com muita elegância. Fazer a linha "Kátia Cega" para subir na vida só leva a um destino: a infelicidade. E, geralmente, a uma conta bancária vazia no final. Eu nunca fui uma grande especialista, embora já tenha tido meus momentos. Tive três relacionamentos sérios. Longos, de quatro anos cada. Sempre achei exaustivo ter que me dividir; nunca soube ser duas. Meus namoros terminavam sempre do mesmo jeito: eu punha o ponto final. Por quê? Porque eu percebia que estava vivendo para o outro, e não com o outro. E quando o amor-próprio dá sinal de cansaço, é hora de fazer as malas. É muito melhor um apartamento novo, bons amigos e um cachorro do que um trono que não te serve. Você pode malhar três horas por dia, decorar a carta de vinhos e fingir que entende de causas humanitárias para usar uma coroa. Pode até funcionar por um tempo e pagar suas contas. Mas, lá no fundo, você sabe que aquela vida é dele, não sua. No fim das contas, se não houver verdade, você vai acabar voltando para a saparia. E aí, minha cara, a busca recomeça. Mas não diga que eu não avisei

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A ex o ex, o atual, sogras e a família, o doce inferno de viver em comunidade!

Viver com alguém é um exercício de paciência que, convenhamos, quase ninguém tem. Mas quando a casa cai e vem a separação, a primeira coisa que a gente quer é jogar tudo pela janela: os móveis, as lembranças e aquele armário mofado que a gente chamava de vida. É natural querer ver o sol e, claro, um novo amor. Porque não há nada mais excitante do que inventar um personagem novo para ocupar o lugar vago no coração. Mas cuidado: tem gente que adora um drama à la Maysa, mergulhando num luto profundo, quase coreografado. Para esses, eu até tiro o chapéu — haja fôlego para tanto sofrimento. Eu, particularmente, prefiro quem sacode a poeira e diz: 'Próximo!'. É de uma coragem invejável, embora eu confesse: por dentro, a gente costuma estar em frangalhos, mesmo com a maquiagem impecável e sem mover um músculo do rosto. Agora, um aviso de utilidade pública: se você engatou um novo romance, por favor, contenha o entusiasmo. Nada de misturar famílias na primeira semana. Sogra é um território minado. Você está levando o filho dela, e ela nunca vai te perdoar por isso — aceite. E nunca, jamais, fale mal da ex dele ou da mãe dele. É falta de elegância e, pior, é um tiro no pé. O novo amor vai passar o resto da vida achando que você vai fazer o mesmo com ele. E o pecado capital: falar do ex. Nem sob tortura, meu bem. Se ele insistir, dê um sorriso enigmático e diga: 'Isso é pré-história'. Mude o disco, mude as atitudes, recicle-se. Repetir com o atual os mesmos erros que você cometia com o antigo é de uma cafonice sem fim. Seja livre, sinta-se livre e, acima de tudo, não tenha culpa de ser feliz de novo. A vida é curta demais para a gente ser coadjuvante do próprio enterro

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Seu destino no jogo de búzios...


Poupem-me dos divãs. A psicanálise, convenhamos, é um tédio absoluto — coisa de gente que se leva a sério demais e adora sofrer com hora marcada e ar-condicionado no máximo. Eu prefiro a minha cartomante. Ou melhor: essa senhora que joga búzios, tem corpo de nona italiana e um colo que nenhum Ph.D. Alemão jamais terá. É muito mais chique. Ela nos recebe como quem espera um filho pródigo que só faz bobagem. Dá sermão, passa a mão na cabeça e, entre uma chacoalhada e outra nos búzios, resolve a vida. Porque, vamos ser honestos: ninguém acorda querendo saber do sobrenatural quando está ganhando na loteria ou com um amor esplêndido debaixo do braço. A gente procura o místico quando a coisa desanda. Lá dentro, o mundo ganha cores vibrantes. O 'fulano' vira um perigo iminente, o 'cicrano' é o invejoso de plantão e, de repente, você descobre que a sua vida não caminha porque está 'amarrado'. Que alívio! A culpa deixa de ser sua — o que é sempre exaustivo — e passa a ser da zica alheia. É libertador. Depois, vêm os banhos. Saio de lá parecendo um pote de tempero ambulante, exalando canela, açúcar e uma esperança quase infantil. É ridículo? Talvez. Mas é de um romantismo que essa modernidade asséptica, cheia de termos técnicos e diagnósticos de farmácia, nunca vai alcançar. Entre um relatório de terapeuta e uma vela de sete dias com mel para 'adoçar' o bofe, eu fico com o mel, sem pensar duas vezes. No mínimo, a gente sai com a alma lavada e um perfume infinitamente melhor do que o de um consultório fechado. No fim das contas, a gente só quer que alguém nos diga que o amor está chegando — mesmo que ele venha a pé, de sandálias, e demore uma eternidade para tocar a campainha

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A vida, convenhamos, é um tédio retumbante se a gente não inventar uma moda

As pessoas andam por aí com uma insatisfação crônica, culpando o vizinho ou o último comercial de TV pela própria melancolia. E tome 'corrida do ouro': é o sapato da China, o carro do Afeganistão, o marido da Bósnia — desde que seja dos Bálcãs, por favor, que o exotismo está em alta. Nem Maslow ou Rogers, com todas as suas pirâmides e teorias, dariam conta desse nosso caos. Eu, por exemplo, já fui um verdadeiro cabide ditatorial. Entrava estação, saía estação, e lá estava eu: revista de moda debaixo do braço, corte de tecido na mão e uma costureira paciente à disposição. Fui platinado, ruivo, roxo, raspei a cabeça quando me deu na telha. Fui uma vitrine ambulante das minhas próprias angústias — e quem não é, meu bem? Teve a fase da revolta, claro. O piercing no nariz, que causou chiliques na população e o ódio mortal da minha mãe. Adorei cada segundo de 'descolada', até que todo mundo resolveu usar. Aí, perdi a paciência e tirei. Não suporto uniformes. Nos amores, nunca quis o óbvio. Enquanto as amigas buscavam o 'bonitão da vez', eu me perdia pelos inteligentes, os filósofos de boteco — esses sim, perigosíssimos. Os contadores de piada sempre me deram uma preguiça infinita. Já fiz a linha ascética, vivendo de água e bolacha para caber em uma calça Pantalona, e já me afoguei em açúcar só pelo prazer de estar insatisfeita. Somos vários personagens num corpo só, uma promiscuidade de identidades. Hoje? Hoje saio de jeans e camiseta. Mas não se engane: tem dias que acordo com vontade de ser fatal, de bota e lenço no pescoço, pronto para o crime. Dizem que quem é de tudo não é nada. Pois eu acho o contrário: passar pela vida sendo uma coisa só é de uma falta de imaginação atroz. Eu me invento, me transformo e me faço de novo a cada manhã. É exaustivo, eu sei. Mas é a única forma de não morrer de tédio