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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Enquanto você dormia...

A nudez no quarto era um escândalo. Ali, sob o teto, o corpo dele — que antes tinha a passividade de um padre — subitamente se transformava. Era a metamorfose do bicho! Pernas e braços num bailado de luxúria, uma língua implacável desvendando o ser. O calor era um sopro do inferno em volta do corpo quente. Enquanto você dormia, eu ria. Sim, ria de puro desespero! E te beliscava, com a crueldade dos amantes, só para que você acordasse e sentisse aquela dor aguda, divina, que atende pelo nome de desejo. Chorei? Chorei em silêncio. Chorei porque você estava ali, com um vigor sexual de dar inveja aos mortos. O sexo era ótimo, sim senhor! O cansaço era a única verdade, a fricção íntima de dois corpos esgotados. Mas o seu sono... Ah, o seu sono absoluto me deixava maluco! Era uma traição. Naquele momento, você não era meu; era dono do seu sonho mais íntimo, de um território onde eu não punha os pés. Eu morria de inveja da sua paz! Tive vontade de fotografar tudo, de montar uma galeria da nossa obscenidade para que o mundo inteiro visse a minha felicidade. Porque, diga-me: o que seria das relações sem a memória do pecado? Sem as fotos não tiradas e as histórias engolidas? O ser exposto precisa de um público! Quem se exibe quer provocar o ódio, o amor, o bem e o mal. É a fina navalha! Andamos por ela, sangrando suavemente para não matar o outro. Manchar a alma por puro ego é um risco. O risco de perder o seu nome — você! Eu sentia medo, uma angústia que machucava a minha própria carne. Mas eu preciso disso! Preciso do seu 'sim', da sua mão percorrendo a minha pele molhada, dos seus dedos no meu peito. Eu queria a sua língua me penetrando as entranhas, o seu corpo me possuindo com a rigidez de um carrasco e a culpa de um seminarista. Você, ajoelhado no meu colo, dominando o impossível

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Alo... Alo Terezinha:


Quem foi que disse que para ser feliz precisa de muito? Conversando com uma amiga na academia — aquele templo de suor e lamentações — ela soltou o dogma definitivo: "Depois de certa idade meu amigo, a vida te dá duas opções: ou você escolhe ser feliz, ou escolhe ser magra. Os dois não cabem no mesmo jeans!" Nem preciso dizer qual foi a opção dela, né? Mas ela tem a sorte a favor: o marido faz tudo o que ela quer, a vida já está ganha, os filhos criados... agora o único boleto que ela tem para pagar é o da nutricionista. O projeto agora é ser "magra de berço", mesmo que o berço tenha sido há décadas. Triste mesmo é pra quem ainda está correndo atrás do prejuízo (e do prejuízo acumulado no bufê de sobremesas). Tem gente que faz tanta promessa que o pobre do Santo Antônio já deve ter pedido aposentadoria por invalidez. É santo enterrado de cabeça para baixo, santo no congelador, santo amarrado... Uma verdadeira sessão de tortura medieval com o pobre do "casamenteiro". E como ninguém é uma ilha (e ninguém quer viver à base de delivery individual), surgiu a técnica do pirulito. Dizem que, como o Santo Antônio carrega o Menino Jesus no colo, o segredo é balançar um saco de pirulitos e prometer a guloseima para a criança. A lógica é infalível: a criança abre o berreiro no ouvido do Santo pedindo o doce, e ele, para ter um minuto de paz, resolve o seu encalhe em segundos. É chantagem espiritual de alto nível! Mas tem gente que abusa. Uma conhecida fez um combo de pedidos: queria um marido rico, um emprego na área de formação, filhos e, de brinde, a felicidade plena. Eu, na minha santa ingenuidade, comentei: "Mas aí você está querendo que o Santo faça um milagre e ainda assuma a consultoria do seu RH?". No que ela respondeu, com a maior cara de pau: "Ué, mas eu nem pedi que o marido fosse bonito!". Claro que ela não conseguiu nada. Até o Santo ficou confuso com o edital de convocação dela. Esse negócio de felicidade é a maior mentira da vida (e olha que a Bethânia canta isso com uma convicção de dar inveja). A felicidade só não é completa porque a gente ainda não descobriu em qual shopping ela fica. Se tivesse endereço físico, a felicidade seria eterna, rica, elegante e aceitaria parcelamento em 12 vezes sem juros. E por falar em eternidade, tem gente que é de uma pureza assustadora. Acredita em amor de verdade, Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e, o auge do delírio: o Príncipe Encantado. No cavalo branco. Com brasão e coroa. Gente, acorda! Príncipe de verdade só mora em Londres, Mônaco ou na Arábia Saudita (e esses últimos vêm com um harém de brinde). No Brasil, o Roberto Carlos não é Rei nem na Urca, a Xuxa já se aposentou do trono dos baixinhos, o Pelé entregou a chuteira e o sofá da Hebe virou peça de museu. Aqui, realeza mesmo só a Família Orléans e Bragança, que ainda discute se o trono é de Petrópolis ou de Vassouras enquanto a gente discute se o preço da picanha baixou. No fim das contas, quem entendeu tudo foi o Chacrinha. Ele não prometia príncipe, nem abdômen definido. Ele era o Rei do Cassino, o monarca da buzina e o imperador do bacalhau. Para quem ainda está aí tentando ser feliz na base da promessa e da alface: "Alô, alô, Terezinha! É um barato o cassino do Chacrinha!". Porque, no fundo, a felicidade não é um estado de espírito... é um estado de bagunça

domingo, 10 de abril de 2011

domingo, 20 de março de 2011

terça-feira, 8 de março de 2011

E que venha Bruna Surfistinha!



Olha, vamos combinar: tem coisas que a gente simplesmente não precisava ver. Essa mania do cinema nacional de achar que qualquer vida desregrada merece um close de duas horas é de um tédio absoluto. E essa menina, a tal Bruna... por favor! Uma moça de classe média, com todas as oportunidades de ser alguém interessante, de ter uma conversa inteligente, resolve que o auge da existência é virar garota de programa por puro capricho? É desnecessário. Não há nada de glamoroso em ser autodestrutiva quando se tem escolha. O glamour, meu bem, exige inteligência, exige mistério. E ali não tem mistério nenhum, é tudo muito exposto, muito cru, muito... ugh, sem classe. O que me choca não é a profissão — que, aliás, é a mais antiga do mundo e merece respeito quando é questão de sobrevivência —, mas essa veneração ao erro. Transformar usuária de droga e prostituição por tédio em 'ícone' é o fim dos tempos. Onde foram parar as mulheres que realmente faziam a diferença? Aquelas que a gente olhava e queria ser igual, pela postura, pelo intelecto, pelo charme? Agora a moda é o 'borralho' sem o sapatinho de cristal no final. É o choque pelo choque. E a Débora Secco, coitada, faz o que mandam, mas não salva o roteiro. No fundo, o que sobra é um filme com fotografia pobre e um discurso mais pobre ainda. É o tipo de coisa que a gente assiste e sai com vontade de tomar um banho longo e ler um bom livro de memórias de alguém que realmente tenha tido uma vida que valesse a pena contar. Francamente, se é para ver tragédia sem propósito, prefiro ficar em casa tomando um dry martini e olhando para a parede. Ao menos a parede não tenta me convencer de que o branco é moderno.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Se a vida fosse um filme



— e convenhamos, deveria ser — eu seria bem mais alto. Teria cabelos soltos, desses que o vento bagunça com precisão, e seria, no mínimo, deslumbrante. Desceria aquela escadaria de E o Vento Levou, sem pressa, só pelo efeito dramático. A mocinha? Teria o rosto da Dietrich, um olhar de quem já viu de tudo e não se impressiona com quase nada. Estaria de Yves Saint Laurent, claro, com uma piteira entre os dedos e aquele gesto arqueado, aristocrático. Nos olhos, toda a poesia de Chico Buarque. Se a vida fosse cinema, eu seria famoso. O amor não seria um esbarrão sem graça no metrô às seis da tarde. O amor seria pedido à la carte. Imagina a cena? Você senta, abre o menu e diz ao garçom: 'Traga-me um tipo de 1,80m, inteligente, poliglota e que saiba, por favor, quem criou La Bohème'. E, para acompanhar essa caça, o vinho mais caro e sangrento da adega. Quase um banquete, com maçã na boca e bandeja de prata. Viveríamos entre a precisão de Elizabeth Bishop e o sol do Aterro do Flamengo. Teríamos a força de Rodin e o drama de Camille Claudel. Aboliríamos os domingos — que são ociosos e deprimem — e o número 19, que é foneticamente pavoroso. Eu seria Bento Gonçalves tomando um café no outono, ou estaria em Pamplona vendo uma tourada, ou quem sabe me perdendo nos azulejos de São Luís. Seria Jô Soares com o cérebro da Marília Gabriela. Se a vida fosse filme, eu não perderia um segundo. Mas, como o roteiro original é meio caprichoso e a pessoa ideal não existe, o jeito é a gente se copiar. É a única forma de viver com algum estilo

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

“ LIBERTAS QUAE SERA TAMEM”...


liberdade: Antes Tarde do que Nunca (E olhe lá!) Oito meses escrevendo cartas que nunca foram para o correio? Querida, pare com isso agora. É perda de tempo, e tempo — a gente descobre depois dos trinta — é o nosso único luxo real. Essa história de se prender à vontade do outro, de esperar uma resposta que virou um monossílabo de segundos... quem nunca? Todas já passamos por esse papelão. Mas a regra é clara: se a conversa encolheu, o interesse também. Ponto. E aí você me vem com os Inconfidentes. Acho chiquérrimo, o romantismo tem seu valor, mas vamos combinar: libertar-se de um amor mofado é muito mais difícil do que expulsar os portugueses. É um Iluminismo pessoal, sabe? É parar de pedir licença para ser quem se é. Olha a Eva. Todo mundo diz que ela pecou, mas eu prefiro pensar que ela simplesmente não aguentava mais o tédio do Paraíso. Aquele lugar devia ser uma chatice! Adão, coitado, era um omisso. Eva foi a primeira mulher com iniciativa da história: trocou a segurança de uma redoma por uma fruta do pecado e a chance de decidir o próprio destino. Bravo, Eva! E a Diana? Aquilo sim foi um grito. Imagina o que é aguentar aquela pompa toda, aquele figurino rígido e um marido que amava outra, só por causa de uma aparência governamental? Ela rompeu, foi ser feliz do jeito dela, com os erros dela. Deu o que falar? Deu. Mas viveu. Agora, o que eu acho o máximo mesmo é essa sua amiga das quartas-feiras. Cinco mulheres, um jantar e conversa jogada fora. Isso não é só um grupo, é terapia de luxo. Não existe nada mais libertador do que o apoio de quem nos entende sem precisar de legenda. É a nossa própria militância, no estilo Dilma, mas com um vinho melhor e sem o peso do Planalto nos ombros. No fim das contas, aquele lema da bandeira de Minas faz todo o sentido: Libertas Quae Sera Tamen. Liberdade, ainda que tardia. Mas eu acrescentaria: que seja agora! Porque esperar dói, e a vida — essa danada — não espera ninguém. Portanto, liberte-se. Deixe as cartas na gaveta (ou melhor, queime-as) e vá para o jantar de quarta. Ser livre dá um trabalho danado, mas é a única coisa que realmente vale a pena.

domingo, 2 de janeiro de 2011

E bom velhinho não apareceu...



Depois de esperar a vinda do bom velhinho durante dias, desisti de ficar olhando para o céu e ficar vendo se ainda tinha algum trenó passando.
Então, ele não vem mais, é isso? Sim não vem! E quando ele não aparece o que fazer? Apelar para todos os ritos que possam trazer o que é de bom para o próximo ano.
Pular três ondinhas quando se tem mar, no meu caso só o lago dos Ipês (que nem Ipê tem) e nem é assim um lago.
Jogar flores pra Iemanjá, o difícil seria arrumar uma água com correnteza forte, para arrastar os meus trabalhos e pedidos. O que seria mais difícil porque as águas de furnas são calmas, e tenho certeza que com o tamanho da canoa e dos pedidos ela nem sairia do lugar.
Comer três uvas! Comi as três, tomei o pró-seco, joguei a taça para trás, e o que aconteceu? Uma chuva horrorosa. Molhei alguém que estava passando atrás de mim, e as uvas até hoje não resolveram sair.
Bom! Mas ainda tinha que continuar o rito praticamente satânico do Reveillon, que era os banhos... Como alguém consegue fazer tanto rito na noite da virada? Se fossemos fazer todos, passaríamos a virada fazendo e nada mais. Mas o banho é de algumas ervas, manjericão para acalmar o espírito, canela em pau abrir os caminhos, alecrim felicidade, cravo da índia para atrair o amor, e por ultimo não menos importante o loro, para trazer dinheiro e fartura.
E depois de tudo fervido e coado, reserve porque estas ervas cozidas devem ir para um jardim. Com o liquido tomar o banho de descarrego.
Depois do banho tomado lancei com toda minha força de ter tudo isso, e o que aconteceu foi algumas erupções na pele e um avermelhado estranho(acredito que tenha sido alergia). Com o restante do banho, joguei na Praça da cidade de Cangereyork, e já estou até pensando se para efeito do trabalho o jardim teria de estar impecável, o que não acontece, pois o descaso com o jardim é publico e notório.
Mas o que vale é a intenção do feito. O resto deixa por conta dos Santos que gostam destas efusões. Mas por favor, que me traga o que foi pedido e firmado!
Quanto às previsões feitas pela minha até então jogadora de búzios, nada aconteceu. O fulano de fim de ano não apareceu quem eu já conhecia e supostamente tinha um “afer”me trata como amigo irmão, este também iria voltar cheio de amor pra dar. E o que supostamente seria mesmo o grande amor da minha vida? Este já arrumou as malas faz tempo, e hoje nem fala mais comigo!
Mas isto, não vai tirar os meus propósitos de que no ano de 2011 as coisas serão melhores. E quando chegar a virada de 2011 para 2012 fazer tudo novamente!