As pessoas andam por aí com uma insatisfação crônica, culpando o vizinho ou o último comercial de TV pela própria melancolia. E tome 'corrida do ouro': é o sapato da China, o carro do Afeganistão, o marido da Bósnia — desde que seja dos Bálcãs, por favor, que o exotismo está em alta.
Nem Maslow ou Rogers, com todas as suas pirâmides e teorias, dariam conta desse nosso caos. Eu, por exemplo, já fui um verdadeiro cabide ditatorial. Entrava estação, saía estação, e lá estava eu: revista de moda debaixo do braço, corte de tecido na mão e uma costureira paciente à disposição. Fui platinado, ruivo, roxo, raspei a cabeça quando me deu na telha. Fui uma vitrine ambulante das minhas próprias angústias — e quem não é, meu bem?
Teve a fase da revolta, claro. O piercing no nariz, que causou chiliques na população e o ódio mortal da minha mãe. Adorei cada segundo de 'descolada', até que todo mundo resolveu usar. Aí, perdi a paciência e tirei. Não suporto uniformes.
Nos amores, nunca quis o óbvio. Enquanto as amigas buscavam o 'bonitão da vez', eu me perdia pelos inteligentes, os filósofos de boteco — esses sim, perigosíssimos. Os contadores de piada sempre me deram uma preguiça infinita.
Já fiz a linha ascética, vivendo de água e bolacha para caber em uma calça Pantalona, e já me afoguei em açúcar só pelo prazer de estar insatisfeita. Somos vários personagens num corpo só, uma promiscuidade de identidades. Hoje? Hoje saio de jeans e camiseta. Mas não se engane: tem dias que acordo com vontade de ser fatal, de bota e lenço no pescoço, pronto para o crime.
Dizem que quem é de tudo não é nada. Pois eu acho o contrário: passar pela vida sendo uma coisa só é de uma falta de imaginação atroz. Eu me invento, me transformo e me faço de novo a cada manhã. É exaustivo, eu sei. Mas é a única forma de não morrer de tédio
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
A vida, convenhamos, é um tédio retumbante se a gente não inventar uma moda
As pessoas andam por aí com uma insatisfação crônica, culpando o vizinho ou o último comercial de TV pela própria melancolia. E tome 'corrida do ouro': é o sapato da China, o carro do Afeganistão, o marido da Bósnia — desde que seja dos Bálcãs, por favor, que o exotismo está em alta.
Nem Maslow ou Rogers, com todas as suas pirâmides e teorias, dariam conta desse nosso caos. Eu, por exemplo, já fui um verdadeiro cabide ditatorial. Entrava estação, saía estação, e lá estava eu: revista de moda debaixo do braço, corte de tecido na mão e uma costureira paciente à disposição. Fui platinado, ruivo, roxo, raspei a cabeça quando me deu na telha. Fui uma vitrine ambulante das minhas próprias angústias — e quem não é, meu bem?
Teve a fase da revolta, claro. O piercing no nariz, que causou chiliques na população e o ódio mortal da minha mãe. Adorei cada segundo de 'descolada', até que todo mundo resolveu usar. Aí, perdi a paciência e tirei. Não suporto uniformes.
Nos amores, nunca quis o óbvio. Enquanto as amigas buscavam o 'bonitão da vez', eu me perdia pelos inteligentes, os filósofos de boteco — esses sim, perigosíssimos. Os contadores de piada sempre me deram uma preguiça infinita.
Já fiz a linha ascética, vivendo de água e bolacha para caber em uma calça Pantalona, e já me afoguei em açúcar só pelo prazer de estar insatisfeita. Somos vários personagens num corpo só, uma promiscuidade de identidades. Hoje? Hoje saio de jeans e camiseta. Mas não se engane: tem dias que acordo com vontade de ser fatal, de bota e lenço no pescoço, pronto para o crime.
Dizem que quem é de tudo não é nada. Pois eu acho o contrário: passar pela vida sendo uma coisa só é de uma falta de imaginação atroz. Eu me invento, me transformo e me faço de novo a cada manhã. É exaustivo, eu sei. Mas é a única forma de não morrer de tédio
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