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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Celebrar a vida ?

"Só hoje me dei conta de que celebrar a vida é virtude de alguns e sabedoria para outros. Celebrar a vida demanda tempo, divertimento, pessoas e horas de observação. Mas não uma simples observação: uma contemplação. Uma contemplação dos dias de chuva, por exemplo. Ver a formação das nuvens, o entremeio do branco com o cinza, e o escurecimento total do tempo. Logo, um vento que sopra devagar para a formação das nuvens; depois, um vento mais forte anunciando a chegada da chuva. Então, as gotas caem timidamente, para logo depois ela resolver cair em abundância, lavando a alma, a vida, as janelas, os telhados, a rua, os carros e as pessoas que passam por ali. As árvores balançam com o vento como se estivessem dançando e agradecendo aquela maravilha de água (como invejo as árvores por ficarem soltas neste momento!). É uma celebração do viver e do estar vivo. Maravilhoso! É disto que estou falando: dessa celebração sem motivo, sem datas comemorativas; desta festa que a gente faz dentro de nós mesmos só por poder olhar para o dia e ver que o sol brilha. A rua parece um pouco mais longa, as pessoas estão menos ou mais carrancudas, a criança anda com seu triciclo na praça enquanto sua babá conversa ao celular — ali, a criança domina o próprio espaço. Outro garoto vai jogar bola, está um pouco mais falante que nos outros dias e ri de tudo o que escuta quando o assunto volta a se direcionar a ele. O café tomado depois de uma longa caminhada... como é saboroso! Acompanhado de risadas e pessoas que falam de outras pessoas e de si mesmas. Conversas inteligentes e bobas ao mesmo tempo; e, entre uma risada e outra, uma pausa para um gole do café que já esfriou na xícara. E aí me lembro dos garotos, que são sempre iguais: pensam dias a fio, têm sonhos de tamanhos diferentes, mas sonham — e como sonham! Pensam que querem ser protegidos, e nunca proteger; pensam em paixões, mas nunca em amores; pensam no desejo da vida e, o melhor de tudo... pensam em brinquedos! Quando a gente menos espera, lembra que a nossa vida poderia ser uma trilha sonora. Hoje, pelo menos a minha está mais para baladas do Kid Abelha. Pode ser que amanhã, quem sabe, ela mude para Paulinho da Viola, mas hoje não! Hoje ela quer brincar de ser artista, olhar no espelho e tentar decorar um poema, fazer com que eu pense em um amor que está longe e que vai chegar à minha porta para me fazer juras eternas. Hoje eu adoraria sair vestida com uma camisa listrada colorida e algum acessório supertransado; afinal, a minha vida está para uma trilha sonora colorida. Como invejo as pessoas que conseguem celebrar a vida! Como elas são felizes e conseguem contemplar várias coisas ao mesmo tempo: que o céu azul não é um simples azul-claro ou escuro, mas um azul-lilás... Que uma janela antiga, aberta expressivamente, transforma a construção no projeto mais harmônico do mundo. Que, entre o 'saber tudo' e o 'nada sei', existem os que entendem. Que olhos azuis variam entre tons de cinza e verde, causando uma confusão na paleta de cores. Pão saído do forno é mais saboroso que frio. E tudo isso só se aprende com experiência, sabedoria e contemplação!"