sexta-feira, 18 de julho de 2014
A Gente se Perde no Meio do Caminho
Outro dia, na cadeira do dentista — o único lugar onde a gente é obrigado a ficar quieta e pensar na vida enquanto alguém mexe no que é nosso — me peguei divagando sobre essa mania que as pessoas têm de esperar sem saber exatamente o quê. É um perigo. Porque, convenhamos, se você não sabe o que procura, quando encontra, não sabe o que fazer com aquilo. É como ganhar um presente caríssimo e não ter ocasião para usar. Uma bobagem.
Ouvi um burburinho sobre a cidade, gente reclamando dos rumos que as coisas tomaram. E parei para pensar: mas o que foi mesmo que a gente perdeu no meio do caminho? Para saber o que falta, é preciso lembrar de onde viemos. E a nossa história, vamos falar a verdade, foi sendo escrita no improviso.
Trouxeram gente de fora para as colheitas. As famílias cresceram, o trabalho acabou, mas a coragem de ir embora se esgotou antes do dinheiro. E o que fizeram os nossos administradores? Nada, meu bem. Faltou aquela "fabriqueta", um emprego qualquer, um plano que fosse. Deixaram as pessoas se amontoarem nos arredores, como se a cidade fosse um armário que a gente vai entulhando e finge que não vê a bagunça.
Depois, para completar o cenário, mandaram o presídio. E com ele veio o pacote completo: famílias, amigos, o movimento todo. Esqueceram apenas de um detalhe "bobo": policiamento, segurança, uma promotoria que batesse o pé. É aquela velha história de convidar para o jantar e não por a mesa.
E os nossos vereadores? Ah, esses são um espetáculo à parte. No palanque, juram ser os fiscais do povo. Mas, na prática, transformam a Câmara num "Xou da Xuxa". É beijinho para cá, ringue de luta livre para lá, um bate-boca sobre quem fez menos. No fim das contas, esquecem que estão ali para representar a gente, com dignidade, e não para dar show.
No final desse tratamento de canal emocional, a pergunta que fica é: o que esperar quando se está esperando? Talvez a resposta seja que a gente se perdeu tanto que nem sente mais falta do que era bom. E o pior cego, você sabe, é aquele que não quer ver que a casa está caindo — mas continua esperando o próximo capítulo da novela
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