O tempo é de uma maldade sem fim: ele nos obriga a carregar tralhas. Volto de quinze dias de viagem, entre o Natal e o Réveillon, e a vida tenta tomar forma. Dizem por aí: "ano novo, vida nova". Bobagem. O ano é novo, mas a alma insiste em arrastar coisas velhas, pesadas, que deveriam ter ficado pelo caminho.
Falar em tralhas me lembra das malas. Existe algo mais deprimente do que desfazer malas? Lavar, passar, guardar… uma sucessão de gestos inúteis. O ideal seria deixar a bagagem para trás e entrar em casa apenas com o essencial na mão. O que é o essencial? Documentos, cartões, óculos escuros e dinheiro para uma emergência — porque emergências acontecem, e geralmente custam caro.
Na bolsa de mão, o mínimo para a sobrevivência digna: um tapa-olho, escova de dentes, hidratante e protetor solar (afinal, até as luzes de LED hoje parecem querer nos matar). Para o tempo passar, um livro. Para o resto, um Lexotan. O mundo seria infinitamente mais elegante sem filas e sem esse excesso de bagagem que as pessoas insistem em ostentar.
Abro o armário e decido: limpeza geral. Papéis, contas de dois anos atrás, lembretes de coisas que já esqueci. Tralha, puro entulho. Até que chego nela: a caixa de Pandora. Aquela que a gente não abre há séculos, mas que guarda cadernos com palavras que te puxam pelo braço de volta ao passado.
Dizem que é vivência. Eu digo que é peso morto. Cartas, telegramas, cartões de aniversário — o museu de um tempo que já deu o que tinha que dar. Se foi bom, ficou na memória; se não ficou, não é um pedaço de papel que vai salvar. Olho para aquilo tudo, para as fotos e os cartões-postais de quem já nem sei onde anda, e não tenho dúvidas: saco de lixo.
Viver é saber descartar. O resto é sentimentalismo barato
