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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

24 hoas? !



Dizem que o dia tem 24 horas. Um equívoco, obviamente. Para uma pessoa que se preze, o dia deveria ter a extensão de um fim de semana em Paris, e olhe lá. É que inventaram tantas obrigações — e todas com esse ar de "é para o seu bem" — que a vida virou um check-list de farmácia. Primeiro, o sono. Dizem que oito horas são sagradas. Já perdemos um terço da vida babando no travesseiro, o que é um tédio. Aí você acorda e, antes do primeiro café, já tem que estar em cima de uma esteira. Uma hora de caminhada para "circular o sangue". Francamente, se o sangue não circulasse sozinho, a gente não estaria viva. Depois vem o capítulo da mesa. Comer a cada duas horas? Isso não é dieta, é um compromisso social com o próprio estômago. E a mastigação? Cem vezes cada garfada. No terceiro pedaço de alface, a festa já acabou, o assunto morreu e você ainda está lá, mastigando como uma vaca sagrada na Índia. E as misturas milagrosas? É a taça de vinho pro coração, o suco verde pro fígado, a água (quatro litros, imagine o estado do banheiro!), a fibra, a maçã, a aspirina. Se você tomar tudo o que mandam, o resultado não é saúde, é um curto-circuito. No fim do dia, você não é uma pessoa saudável, você é um laboratório ambulante. Higiene bucal, então, virou um ritual religioso. Massagear gengiva, fio dental, bochecho... Quando você finalmente termina de cuidar dos dentes, já está na hora de sujá-los de novo no café da manhã do dia seguinte. E os amigos? Dizem que é preciso "regar" as amizades todos os dias. Mas quem tem tempo de regar alguém se a gente mal consegue se hidratar com os tais quatro litros de água? Se eu sumir, não é falta de afeto, é falta de agenda. A solução, claro, seria se trancar em um mosteiro tibetano no alto do Himalaia(tão mais reconfortante)ou a aceitação do caos. Porque, entre ler dois jornais, trabalhar oito horas, malhar e ser feliz, eu prefiro uma boa taça de champanhe — sem pensar nos polifenóis — e dormir apenas o tempo necessário para sonhar com um mundo onde o relógio não seja o nosso maior inimigo. Viver, afinal, dá um trabalho danado

Promessas e Outras Ficções



Prometer é um exercício de má educação. É fácil, não custa nada e, convenhamos, quase nunca se cumpre na ordem em que foi dito. Políticos prometem acabar com as especulações e nós, com essa mania cristã de acreditar no impossível, acabamos com um estoque enorme de descrédito. É um cansaço. E o amor? Ah, o amor e suas promessas de bangalôs. Tem gente que se agarra a qualquer fresta de luz, jurando que um dia o amor vai dar certo. Nem sempre dá, aceitem. E essas pessoas penam, coitadas. Vivem de promessas básicas: um anel, uma pulseira, um bracelete qualquer. Esperam a casa com varanda e flores na janela, e acham que a felicidade mora num bangalô — que nem precisa ser em Bali, pode ser em qualquer lugar, desde que seja "o" lugar. No fim, quem acreditou fica de mãos abanando, sem ganhar sequer um daqueles brindes de plástico que vinham nos chicletes de antigamente. Mas o que me irrita de verdade são as promessas de Ano Novo. Aquelas que a gente faz para si mesma e que morrem na primeira semana de janeiro. "Vou parar de fumar", eu digo, enquanto acendo o próximo. Se eu tivesse cumprido tudo o que prometi a mim mesma, minha casa de ex-votos seria maior que a Basílica de Aparecida. Hoje, prefiro o bom senso: se acontecer, ótimo. Se não, é porque não era para ser. Ponto. Não se sofre por palavra dita ao vento. E as secretárias? Entra ano, sai ano, e a gente se promete que a próxima será um "anjo da guarda". Bobagem. Elas nunca são o que a gente espera. Às vezes penso que seria melhor contratar uma secretária marroquina, ou de uma tribo bem distante, só para não ter que ouvir a frase "da próxima vez eu faço certo". Porque a gente sabe: não fará. Depois vêm os chefes com os aumentos que nunca chegam, as promoções que ficam no papel e aquelas pessoas distantes que juram que vão voltar. Tenho pavor de quem promete voltar; no fundo, a gente sabe que não é verdade. Dizem que sou chata, intolerante. Talvez eu seja. Mas quem não ficaria intolerante sendo deixada no topo do Himalaia, sem casaco e sem paraquedas? Sou o tipo de chata que insiste até conseguir o que quer. Para uns é chatice, para mim é eficiência. Um conselho: não prometa nada na beira de um caixão. O morto pode levar a sério e voltar para cobrar. E não perca tempo prometendo aos santos. Eles devem estar ocupadíssimos com as reformas celestiais e nunca me responderam nada. No fim, qual o valor de quem cumpre o que diz? É a satisfação garantida, artigo raríssimo. E para quem não cumpre? A minha mais absoluta ingratidão, devolvida com a mesma elegância de sempre