Páginas

sexta-feira, 10 de abril de 2026

O Luxo da Fluidez

Acordei bonito. E quando a gente acorda bonito, o mundo parece nos pedir licença. Coloquei minha roupa de ginástica — aquela que não pede desculpas a ninguém — e saí. Eram 8h50 da manhã e a cidade já estava naquele frenesi histérico de quem acha que o mundo vai acabar se não chegar ao escritório no horário. Cruzei com os mesmos rostos de sempre. Ou quase sempre, quem se importa? Olhei para aqueles homens de terno e gravata, mulheres impecavelmente montadas para serem consumidas por doze horas de uma meta que ninguém sabe bem quem inventou. Eles me olhavam. Um olhar que misturava julgamento e, lá no fundo, uma pontinha de inveja da minha fluidez em plena sexta-feira. Eles pensam: "Será falta do que fazer?". Mal sabem que é o contrário. É o resultado de uma vida inteira querendo ser exatamente assim: leve. Não há nada mais estressante do que o esgotamento por algo que não nos pertence. Ficar sentado atrás de uma mesa, vendendo a alma para um relatório, é um preço alto demais que eu decidi não pagar. Lembrei que uma amiga querida postou um texto do Pina:(um texto carregado de fortes emoções, como tudo hoje o dia começou emocionante)"Regresso". Ele tem razão: a gente passa a vida querendo conquistar tesouros, quando o verdadeiro luxo é o essencial. É o pão fresco, o silêncio da casa, a capacidade de não ter pressa. Chegar ao essencial é a maior sofisticação que existe. E para coroar essa manhã carregada de emoção, coloquei Ney e Azambujo cantando Noel "Último Desejo". Ah, o encontro do Ney com Azambujo... Se você não sentiu uma lágrima correr pelo rosto ouvindo aquilo, você está morto por dentro. É beleza pura, sem filtros. Acordei feliz porque, finalmente, aprendi a escolher. O dia é belo não porque o sol brilhou, mas porque eu não estou no lugar de ninguém, a não ser no meu!