quinta-feira, 14 de maio de 2026
Olho para essa foto e sinto o baque: quatorze anos se passaram. Quanta coisa a gente vive num intervalo assim, quanta estrada caminha, quantos nós desata. Olhar para o passado é um exercício de costura; vamos recolhendo retalhos de quem fomos, etapas inteiras que ficaram pelo caminho, e alinhavando tudo na memória para entender o desenho da nossa própria história.Houve um tempo em que minha vida era puro movimento, dividida entre a arte do teatro, a liberdade da dança e a magia dos figurinos. Eu não queria o morno. Sambava em todos os eixos possíveis para que meus alunos fossem além, para que o trabalho deles gritasse e virasse assunto na cidade por dias a fio. E confesso, com uma ponta de saudade e graça: naquela época, eu adorava o desconforto que causava. Gostava de saber que me olhavam torto, que cochichavam ou davam risada pelas minhas costas. O que aquela gente não entendia é que aquilo não era provocação barata; era uma paixão visceral pela vida. Era o desejo urgente de empurrar as paredes da escola e mostrar que dava para viver fora da caixa. Minhas ideias transgrediam o óbvio, o cotidiano cinza, as regras comuns. Eu tinha essa urgência de extrair poesia e contexto de cada canto.Aquela coroação, que encerrava o mês de Maio dedicado a Maria, foi o ápice disso. O tema era Nossa Senhora do Rosário, mas não a versão higienizada e tradicional que o manual ensina. Escolhemos contar a história da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos — aquela que recusava o altar de ouro dos senhores e fugia para encontrar o acalento nas águas de Janaina. Era uma narrativa sobre os escravizados que clamavam por liberdade, e não sobre os brancos que ajoelhavam para implorar milagres enquanto mantinham as correntes bem presas.Ainda consigo ouvir o som. As crianças com chocalhos amarrados nos pés, os tambores crioulos ecoando com força e respeito dentro das paredes da igreja, as vozes miúdas cantando cantigas de roda saídas das mães pretas e das senzalas. O grito de "Coroa a Santa!" misturado ao louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Era pele, era tambor, era a história sendo reescrita ali, na nossa frente.Naquele tempo, Colibri não era só um passarinho, era uma escola inteira de vida. E Cidinha, Cicida, Sueli e Marivalda não ocupavam cargos burocráticos de coordenação; elas eram parcerias de alma, legítimas criadoras de histórias. Um tempo lindo, denso e corajoso, que o tempo não apaga e que hoje descansa em mim feito puro amor.
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