sexta-feira, 10 de abril de 2026
O Luxo da Fluidez
Acordei bonito. E quando a gente acorda bonito, o mundo parece nos pedir licença. Coloquei minha roupa de ginástica — aquela que não pede desculpas a ninguém — e saí. Eram 8h50 da manhã e a cidade já estava naquele frenesi histérico de quem acha que o mundo vai acabar se não chegar ao escritório no horário.
Cruzei com os mesmos rostos de sempre. Ou quase sempre, quem se importa? Olhei para aqueles homens de terno e gravata, mulheres impecavelmente montadas para serem consumidas por doze horas de uma meta que ninguém sabe bem quem inventou. Eles me olhavam. Um olhar que misturava julgamento e, lá no fundo, uma pontinha de inveja da minha fluidez em plena sexta-feira.
Eles pensam: "Será falta do que fazer?". Mal sabem que é o contrário. É o resultado de uma vida inteira querendo ser exatamente assim: leve. Não há nada mais estressante do que o esgotamento por algo que não nos pertence. Ficar sentado atrás de uma mesa, vendendo a alma para um relatório, é um preço alto demais que eu decidi não pagar.
Lembrei que uma amiga querida postou um texto do Pina:(um texto carregado de fortes emoções, como tudo hoje o dia começou emocionante)"Regresso". Ele tem razão: a gente passa a vida querendo conquistar tesouros, quando o verdadeiro luxo é o essencial. É o pão fresco, o silêncio da casa, a capacidade de não ter pressa. Chegar ao essencial é a maior sofisticação que existe.
E para coroar essa manhã carregada de emoção, coloquei Ney e Azambujo cantando Noel "Último Desejo". Ah, o encontro do Ney com Azambujo... Se você não sentiu uma lágrima correr pelo rosto ouvindo aquilo, você está morto por dentro. É beleza pura, sem filtros.
Acordei feliz porque, finalmente, aprendi a escolher. O dia é belo não porque o sol brilhou, mas porque eu não estou no lugar de ninguém, a não ser no meu!
segunda-feira, 23 de março de 2026
A Elegância de Sair de Cena
Decididamente, eu gosto de Belo Horizonte! Seu dia a dia é um cenário maravilhoso de apreciar. As pessoas são agradáveis e interessantes; algumas podem ser um clichê do cotidiano, mas outras têm um feeling que não dá para explicar. São grandes personagens nesta cidade-megalópole com cara de 'bão demais da conta, sô!'.
A cidade esbanja uma sensualidade em tudo, até em suas pinturas. Na verdade, ela tem um pudor velado e, ao mesmo tempo, algo que 'mostra as canelas'. É um fato bem antigo, que remete aos séculos XVII e XVIII. Em tempos onde quase tudo é permitido, a nudez ainda fica no grupo dos proibidos. Isto porque, nos dias atuais, para ficar pelado você deve estar, no mínimo, com a terapia em dia.
Que nada! Você precisa mesmo é estar com a queratina, o whey protein, o botox, o lifting e o silicone (para as mulheres) ou a testosterona injetável (para os homens), claro! O corpo precisa estar sempre novo e firme, e isso vale para todos: homens, mulheres e gêneros.
Conforme envelhecemos, vamos sendo 'abolidos' do convívio social frenético dos jovens — o que acho prazeroso. Os velhos perderam a vez, mas ganharam uma infinidade de paz. Uma das coisas em que ando transitando muito são as reuniões que começam pouco depois das 15h e, lá entre as 18h e 19h, já estão sendo encerradas.
Que paz! Aí você consegue ir para casa cedo, tomar um banho e descansar, pronto para um novo dia. Diga se isso não é ganhar a paz? E a sorte de não ter que esbarrar em nada que se mova e seja 30 anos mais novo que você.
quinta-feira, 19 de março de 2026
O Jogo, o Manual e as Terras Mineiras
Dizem que a vida é um jogo, mas esqueceram de avisar que o manual de instruções muda conforme a fase. A regra é curta e grossa: só avança o sinal quem tem coragem — e, convenhamos, "bala na agulha" para segurar o rojão se a multa vier. Se você é o dono do banco ou tem a caneta na mão, o tombo é de veludo. Para o resto de nós, meros mortais, o que chamamos de bravura é, quase sempre, puro desespero.
A distância entre o querer e o fazer esbarra sempre em quem manda no mundo. E vamos falar a verdade: quando o tombo vem de cima, a dor demora a passar. Séculos atrás — ou foi impressão minha? — voltei de Portugal com uma ferida que eu jurava ser eterna. Foram dois anos em "banho-maria", até que o eixo alinhou e a coragem de recomeçar brotou de novo. Com tudo o que se tem direito, é claro.
Oito anos depois, aqui estou: entre o embarque e o desembarque em Belo Horizonte. É um "trem" doido, esse de idas e vindas. Eu e BH temos um caso de amor de cinema, com trilha sonora romântica e aqueles roteiros de drama e decepção que a gente finge que detesta, mas adora.
No fim das contas, começar é ímpeto. Mas recomeçar? Ah, isso é para quem sabe jogar de verdade. A vida é esse duplo sentido eterno: ou você acelera ou adia; ou toma uma atitude ou vira paisagem. E enquanto o mundo não acaba com a gente, eu sigo por aqui. Entre a coragem de fazer e a teimosia de continuar, em terras mineiras
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