sábado, 13 de junho de 2026
O quintal da nossa infância
Hoje a saudade me pegou pelo braço. Não por conta de um nascimento na família, mas pelo avesso: pela celebração de todas as vidas que já dividiram o mesmo chão. Fui escrever uma mensagem de aniversário para um primo e, sem pedir licença, o passado invadiu a mente. Lembrei de nós. Daquela nossa infância barulhenta e urgente, encenada no quintal da minha avó.Havia uma jabuticabeira imensa e, nela, um balanço improvisado com uma poltrona arredondada que meu tio construiu. Cabiam três crianças empoleiradas ali, espremidas entre o risco e a adrenalina de um voo curto. Naquele tempo, antes de a ala dos "temporões" nascer, éramos apenas oito netos orbitando ao redor de Dona Doquinha. Ela era o nosso sol: uma mulher de corpo imponente, braços gordos e acolhedores — daqueles que só as avós de verdade possuem —, dona de uma voz que conseguia ser firme, baixa e absurdamente suave, tudo ao mesmo tempo.Sua casa era uma típica construção mineira, com um alpendre na frente e um quintal que, aos olhos da nossa miopia infantil, não era um lote: era a própria Floresta Amazônica esperando para ser desbravada. Quando os oito se juntavam, o mundo vinha abaixo. Éramos todos profundamente ciumentos — e, para ser bem sincero, acredito que ainda somos. O bicho pegava quando vinham as netas "de fora" — Juju, Lolô e Cacá. O ciúme é um sentimento curioso na infância; a gente vigia o afeto como quem guarda um tesouro. Se já éramos possessivos com quem estava por perto no dia a dia, a chegada das estrangeiras desestabilizava o império.Nessa época de véspera de férias, a casa mudava de tom. Cheirava a cera em pasta. O chão era esfregado com escovão, num exercício hercúleo que exigia braço e paciência. Mas a recompensa vinha à tarde: o perfume da rosca da rainha, os biscoitinhos da Guiomar e, claro, o bolo de tabuleiro da minha avó. Até hoje eu procuro a receita exata daquele bolo e ninguém sabe me dar. Talvez porque eu não esteja procurando os ingredientes. O que eu procuro, na verdade, é o sabor daquela saudade. Quero a minha avó de volta, meus tios na cozinha e a algazarra das primas desembarcando em Campos Gerais.Vencida a barreira do ciúme inicial, a horta virava o nosso palco de brincadeiras. E, antes que o sol se pusesse, Dona Doquinha nos convocava para o café. A prioridade, obviamente, era das recém-chegadas — o ciúme, esse velho conhecido, assistia a tudo de camarote. Nós, os nativos que desfrutávamos daquela senhora de cabelos acinzentados diariamente, ficávamos para a segunda leva. Minha avó não era do tipo que sentava para contar histórias; esse papel lúdico cabia à minha tia, que comandava as brincadeiras, inventava enredos e recortava bandeirinhas de festa junina. Minha avó era o porto de escuta. A gente chegava com as nossas pequenas tragédias infantis, reclamava do mundo, e ela apenas ouvia. Depois, soltava sua sábia filosofia: "Nada como um dia após o outro". Ela levava nossos dramas tão a sério que entendia que só o tempo e a noite poderiam resolvê-los.Criança também sabe ser cruel na sua lógica maquiavélico. Lembro de um dia em que uma das primas de fora, levada pelo entusiasmo cego da infância, arremessou uma torneira de ferro antiga para o alto. A física, que não perdoa, fez o objeto desabar exatamente na cabeça da Marcela, a prima nativa. O caos estava instalado: sangue, chororô e uma coleção de pontos no couro cabeludo da coitada. Nós, os ciumentos donos da casa, não hesitamos em carimbar a culpa na visitante, ignorando a obviedade do acidente. Para uma criança, a palavra "acidente" simplesmente não existe no dicionário. O mundo se divide estritamente em dois lados: os culpados e os injustiçados.Hoje o Brasil estreia na Copa do Mundo. O futebol já não anda lá essas coisas, mas o espetáculo está garantido por quem vai sentar na mesa de um bar qualquer para bancar o técnico, o juiz, ditar a justiça e, claro, apontar os injustiçados de sempre. Hoje também é o aniversário daquele primo querido, um dos temporões que não chegou a tempo de desbravar a nossa "Amazônia" particular no quintal de Campos Gerais, mas que carrega o mesmo sangue e a mesma história.E, como o destino gosta de costurar coincidências, hoje é dia de Santo Antônio. Meu querido Tonho. Vejo essa obsessão contemporânea de mulheres que sequestram o Menino Jesus do colo do pobre santo para forçar um casamento e fico pensando na loucura disso. Deixem-me clarear uma coisa: o único santo que de fato casou foi São José. Portanto, se querem apelar para quem entende do assunto, roubem o menino do homem certo! Santo Antônio deve passar um aperto danado pensando na prestação de contas que terá que fazer à Mãe de Deus. E mãe, sejamos honestos, é bicho maluco. Uma mãe desesperada pelo sumiço do filho se colocaria na frente de qualquer sequestrador e exigiria ir no lugar dele. Nossa Senhora não faria diferente. Mãe é sempre mãe, seja no altar ou no quintal da nossa infância.Portanto, façam uma prece sensata para São José, deixem que ele resolva a sua solteirice e, por favor, deem um descanso para o Tonho. A vida já é complexa demais para encrencarmos com os santos.
sábado, 30 de maio de 2026
ah o amor! seja como for é o amor! (drummond)
drummond foi um sabio ao falar de amor, acredito que deve ter sido melhor amante que poeta, por escrever tao bem sobre ele,com tamanha precisão. É preciso ter sido um amante formidável antes de se arriscar nos versos.Reparem bem: "amor" deve ser a palavra mais pronunciada no mundo, logo atrás de "Deus". E não venham os ateus me dizer o contrário; na primeira turbulência no avião ou no primeiro sobressalto da vida, o grito que escapa da boca é sempre um "Pelo amor de Deus!". No fundo, é o próprio Criador nos lembrando da urgência desse sentimento que Ele, sem precisar de absolutamente nada em troca, insiste em nutrir por nós. É um luxo divino.Dias atrás, caminhando pelas ruas de Belo Horizonte, deparei-me com as colunas lindamente pintadas pelo artista Rogério Fernandes. Em uma delas, saltava aos olhos a inscrição bíblica: "O amor cobre uma multidão de pecados".(⁰registrada no Novo Testamento, em 1 Pedro 4:8, e também tem um paralelo no Antigo Testamento, em Provérbios 10) Uma frase linda, de um misticismo profundo, que tenta nos convencer de que, enquanto o julgamento alheio afasta e condena, o amor tem o poder elegante de aproximar e restaurar o que foi quebrado.Mas vamos com calma. Será mesmo?Se estivermos falando daquela pureza ingênua e febril dos adolescentes, até dou o braço a torcer. Mas o amor adulto, meus caros, aquele que vem com CPF, compromisso e conta conjunta... esse não perdoa. Se houver um deslize grave, um "pecado" que fira a dignidade, não há elegância ou prece que salve. Nem nesta vida, nem na próxima encarnação. O amor-próprio precisa entrar em cena, e ponto final.A verdade é que nós, humanos, somos seres exagerados. Amamos demais e tudo o que vemos pela frente. Amamos o futebol de domingo, a cerveja trincando no copo, o sol na pele, a praia, as pessoas (algumas), os bichos e as plantas. E amamos as coisas, claro. Gastamos nosso estoque de afeto com sapatos, roupas, bolsas e toda sorte de futilidades que este planeta oferece. Chegamos ao cúmulo da cafonice de amar sacolinhas plásticas em pleno século XXI. Consumismo puro disfarçado de paixão.E já que o assunto descambou para o futebol, a Copa do Mundo bate à porta. Com ela, desperta aquele nosso amor incondicional pelo verde e amarelo. Uma pena, confesso, que a nossa belíssima camisa canarinho tenha sido sequestrada pela militância política nos últimos tempos, deixando de lado o verdadeiro patriotismo, aquele que costumava nos abraçar de quatro em quatro anos.Quem não se lembra do Brasil de 1994? Aquilo, sim, era um time movido a puro amor e brio. Branco, Raí, Cafu, Jorginho, Dunga, Leonardo, Mauro Silva, Taffarel... Homens de verdade em campo, que brigavam até a última gota de suor pelo orgulho nacional. Não havia vaidade que ficasse acima da bandeira.Hoje? Bem, hoje o orgulho nacional atende pelo codinome de "Tigrinho". E quem nos vende essa ilusão no Instagram é ninguém menos que Neymar — um jogador que se diz tão verde e amarelo quanto os heróis de 94, mas que parece preferir os cifrões dos cassinos virtuais ao futebol arte.Para completar o cenário dessa nossa comédia de costumes, surge a sua "tigresa": Virgínia Fonseca. A moça, que já havia causado um burburinho danado nas CPI das Betsfpo parar no palanque da Sapucaí ao desfilar como rainha de bateria da Grande Rio e que agora é a mais nova estrela do jornalismo esportivo da TV Globo para o Mundial. Uma escolha, no mínimo, exótica.Mas, no fim das contas, tudo se faz por amor. Amor ao dinheiro, ao clique, à fama. E o brasileiro, que adora um melodrama, vai sentar na sala, ligar a televisão e fingir que está tudo ótimo. Afinal, como diz a coluna pintada por Rogério Fernandes, amar é exatamente isto: cobrir uma multidão de pecados. Nem que seja para a Globo nos mostrar o recibo depois.
domingo, 24 de maio de 2026
O Domingo Literal
Há manhãs de domingo que nascem com uma cara de inverno total, convidando a gente ao luxo absoluto de invernar. O corpo, cansado das exigências da semana, pede trégua. No rádio, a JB FM dita um ritmo lento e a gente se ve ali. Na Rua Pernambuco, uma pequena joia que so amigos sao capazes de nos apresentar.
A gente acorda meio capenga, mas com aquela necessidade bonita de saber dos amigos, de trocar um afeto logo cedo. Foi assim que começou a nossa saga de domingo, em um vaivém de mensagens que trazia a urgência da vida real:
[24/5 09:09] Luiz: Bom dia, florzinha! Me fale: Como vai você? Eu preciso saber da sua vida
[24/5 09:17] Cristina Holzinger: Bom dia flor! Agradeço à Gira não ser razão da sua paz já esquecida! 😁 Estou bem, querido. Seu diagnóstico foi preciso, acho que tudo se deveu ao hábito pernicioso de ficar 10, 12, 14h00 em cima de um salto, 👠. Estou muito bem,, acabei de pôr as pernas pra baixo, capenga como de hábito, sem dor. Um beijjo. Mais tarde vamos conversar para combinar os horários dessa semana, está bem? Outro beijo.
[24/5 09:29] Luiz: Tá certo! Outro beijo. E chega de ficar capenga, porque desânimo definitivamente não combina com mulher loira, resolvida e com esse espírito meio Las Vegas. Quer saber? Se a energia bater, a gente treina hoje. Se faltar o pique, nos entregamos a uma boa drenagem. E, se o corpo pedir trégua, a gente senta apenas para jogar conversa fora, que também é um santo remédio. O Marcelo terá uma reunião às 11h, e aí o tempo é vadio. Vou tentar me dar ao luxo de invernar neste domingo que, convenhamos, já amanheceu com cara de inverno total. Outros beijos
[24/5 09:35] Cristina Holzinger: Meu querido, eu acho que eu saberia reconhecer assinatura de um escrito seu em qualquer lugar do mundo. Estiloso, o meu amigo, estilo só seu e que eu adoro! Acabei de combinar com LOL e Theozinho pra gente ir por volta de 10 ou 10:30 lá na livraria Ramalhete. Ver livrinhos, sair de casa, tomar à fresca, dar uma força pro Álvaro (a iniciativa de uma livraria de rua tem que ser alimentada de entusiasmo). Vamos? Estou com carro e podemos passar aí e te pegar.
[24/5 09:50] Luiz: Oba
[24/5 09:51] Cristina Holzinger: Que bom! Te ligo quando a gente estiver saindo.
Amigo de verdade tem essa mania linda de ler as nossas entrelinhas. Sabe quando a gente quer recolhimento, mas precisa, na verdade, de um empurrão para a vida. Mas aí bate aquela hesitação típica de quem não quer incomodar, o velho pretexto de deixar o espaço livre para os momentos sagrados de família. A conversa continuou, naquele impasse carinhoso que só os íntimos se permitem:
[24/5 10:11] Luiz: Florzinha, vou declinar do convite hoje. Prefiro deixar o espaço livre para você e as crianças aproveitarem plenamente essa manhã invernal e frescor e sol — esses momentos em família são sagrados. Vamos nos falando e combinamos algo com calma para mais tarde.
[24/5 10:14] Cristina Holzinger: Ô flor, vc sabe que está definitivamente integrado à família, vc e Marcelo, não é? Espero que saiba disso. É só uma chegada lá, ver livros, talvez um café, enquanto o patriarca está conspirando nas mesas de sinuca.
[24/5 10:17] Cristina Holzinger: Não posso demorar lá, tenho que voltar para estudar. Nessa próxima quarta começa a série de 3 ou 4 encontros de Lacan que tem me feito perder o louro originsl dos meus cabelos. Vamos?
[24/5 10:19] Luiz: Kkkk
[24/5 10:19] Luiz: Que horror
[24/5 10:24] Cristina Holzinger: Então vamos?
[24/5 10:25] Luiz: Ok.. venceu pelas cabelos não mais originais
[24/5 10:25] Luiz: 5m fico pronto
[24/5 10:26] Cristina Holzinger: 😂 Blza. Te dou um toque.
[24/5 10:47] Cristina Holzinger: Estamos aqui.
E fomos. Deixamos para trás a preguiça e partimos para essa joia que é a Livraria Ramalhete. Iniciativas assim, de livrarias de rua, são atos de coragem poética que merecem todo o nosso entusiasmo. Lá, fomos recebidos por alguém de um coração tão generoso que chega a causar ciúmes em quem frequenta o lugar. A cerveja estava gelada e a prosa muito boa, mas foi a leitura que nos arrebatou. Quantas pessoas não dariam tudo por um domingo assim, tão literal, cercado de palavras e afetos?
No meio de tudo isso, a vaidade humana — essa nossa velha conhecida — resolveu se meter na literatura. Alguém tentou mudar a frase de um escritor por achar que esquecer é algo corriqueiro demais. Ora, o esquecimento é involuntário, um ato suspenso no tempo de quem sabe que um dia vai lembrar. Mas a vaidade preferiu colocar "Abandonar". E a frase ganhou uma força imensa, dessas que fazem a gente silenciar: "Mas já experimentaste simplesmente... Abandonar?"
Naquela manhã, nós experimentamos. Abandonamos o tédio e o frio da alma. O domingo rendeu longas leituras e tantas outras emoções. Obrigado Álvaro, por nos apresentar tão carinhosamente a uma leitura grandiosa através da Ramalhete. O inverno lá fora continuava, mas a gente já estava devidamente aquecido por dentro.
sexta-feira, 22 de maio de 2026
A Ditadura dos Tópicos
A gente passa a vida fazendo listas. As de fim de ano, convenhamos, são um clássico da enganação. Prometer academia, dieta e a ilusão de ser uma pessoa melhor é quase um ritual de passagem que, com sorte, sobrevive até o dia 3 de janeiro. Mas o século XXI, sempre tão exagerado, elevou isso ao nível da pura paranoia. A vida agora virou um manual de instruções fatiado em fascículos. Uma chatice.Dizem que para ser saudável é preciso dormir exatamente oito horas, colocar a garrafa de água bem na frente do nariz para não esquecer de beber, e deixar o despertador no corredor para se obrigar a levantar. Para comer bem, só falta sugerirem pendurar um brócolis na testa. Viramos reféns de estupidas-humilhações diárias para tentar enganar a nossa própria — e tão legítima — preguiça.Que o Oswaldo Montenegro me perdoe, mas aquela música dele, Faça uma Lista, sempre me pareceu de uma chatice sem fim. Começava com os melhores amigos e logo virava uma DR melancólica sobre quem sumiu do mapa. Isso nos anos 90! Se naquela época eu já achava um porre, imagine hoje. Fomos engolidos pela ditadura das redes sociais. É a lista dos doze passos para o skincare — que te deixa com a cara brilhando de óleo, mas sem um tostão no bolso —, as dez regras para o corpo perfeito, a última dieta da moda... E, no meio desse tiroteio, a gente tenta encaixar a humilde lista do supermercado e aqueles restaurantes caríssimos e barulhentos que as pessoas frequentam só para parecerem jovens e descoladas. Que cansaço.Houve um tempo em que a única lista que importava era a telefônica. Aquele calhamaço amarelo, pesado, que servia tanto para achar um endereço quanto para calçar mesa bamba. Era um caos visual, mas resolvia a vida. Nossas mães faziam a lista de compras no verso de um convite de casamento — aqueles que os noivos sofriam para selecionar quem seriam os agraciados. Eu mesmo fui a poucos. No fim do ano, o checklist era um agrado singelo para os santos: vela, flores, canjica. Uma fé prática, sem drama.Hoje, criamos inventários para tudo, da alface à crise existencial. No mercado, o aplicativo dita as ordens. Nas redes, os blogueiros do momento — todos escandalosamente lindos e operados, porque gente feia não ganha curtida nem em lista de chamada escolar — vendem a ilusão da felicidade em tópicos. Mostram tantas novidades com nomes difíceis que, confesso, dá uma saudade imensa das iogurteiras Top Therm vendidas na TV. A gente quer acreditar no milagre, no fundo é isso.Por puro masoquismo, tenho espiado algumas listas espirituais ultimamente. Quero descobrir quais são os sete passos imperdíveis para tentar ser uma pessoa boa nesta encarnação. Se vou conseguir? Claro que não. É coisa demais para a gente entender, saber e fazer. Mas de uma coisa eu tenho certeza: se a minha iluminação depender dessa mania de listar a vida, eu vou direto para o inferno. Mas entrarei lá sendo, oficialmente, a pessoa mais elegante e organizado do universo. E talvez, pensando bem, o diabo só precise de alguém de bom gosto para arrumar as gavetas dele.Só não me venham com receitas prontas. Acorde bem em sete passos, fale frases para elevar o espírito... Poupe-me. Prefiro o imprevisto do dia a dia à manipulação da chatice humana...
domingo, 17 de maio de 2026
A arte do domingo.
Vamos ser sinceros: domingo é o único dia em que a vida não exige que a gente use máscara. É o dia oficial de praticar o "nadismo", esse luxo absoluto de não fazer absolutamente nada sem pedir desculpas a ninguém. O domingo é desprovido de invenções, de falsas poses.Se você quer encontrar a verdadeira veracidade das coisas — ou, o que é muito melhor, se você quer ver a cidade —, saia às ruas de Belo Horizonte em um domingo. Nunca tive a menor vocação para apresentar fatos ou relatar a realidade como ela é; o que me diverte mesmo é observar as pessoas, olhar as ruas, notar o visual dos outros. Transitar entre os iguais e os ridiculamente diferentes é um dos maiores prazeres da vida, desde que, por favor, seja em um domingo.Na segunda-feira, o espetáculo fica horroroso. As pessoas se digladiam por metros quadrados em calçadas apertadas, correndo frenéticas para chegar a um lugar que, se formos honestas, nem elas sabem direito qual é. Que falta de classe. O domingo, não. O domingo nos permite encontrar os amigos, jogar conversa fora e nos deitarmos ao sol.E chega dessa bobagem neurótica de quilos de filtro solar. Acho um tédio. Isso é obsessão de quem ainda se ilude com estoque de colágeno. Nós, que já passamos dos 50, fomos criadas em uma época infinitamente mais charmosa. O melhor bronzeador era manteiga ou aquele clássico Cenoura & Bronze. Passávamos o dia inteiro esticadas no sol, até a pele ficar devidamente curtida. A única preocupação das nossas mães — que tinham mais o que fazer — não era com rugas, mas sim em garantir que houvesse um vidro de Caladril na geladeira para refrescar a nossa pele no fim do dia. E o mundo continuava girando perfeitamente.Domingo também tem que ter gosto de infância. Tem cara de macarrão, de frango assado comprado pronto e daquele rocambole de batata reconfortante. Domingo tem que ter a trilha sonora de A Noviça Rebelde tocando na sala, buganvílias explodindo em cores nos muros e uma caminhada sem rumo por alguma feira de publicações independentes, cheia de gente fantástica, exótica e interessante.Isso é veracidade ou ver a cidade? Pouco importa. No fundo, é a mesma coisa.Agora, dou o assunto por encerrado e volto para a companhia da Mariza. Ela, que não é boba nem nada, pratica o seu nadismo dormindo ao sol, com a elegância que só os felinos possuem
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Um Homem Para Chamar de Seu (Ou Não)
Caminhando por Belo Horizonte outro dia, dei de cara com uma pichação numa caixa de luz que dizia: "Se eu pudesse eu queria saber o que você pensa enquanto me esquece". Achei de uma cafonice comovente. Aquela típica humilhação pública de quem fica esperando o telefone tocar enquanto o outro já trocou de número, de endereço e de amante.Minha primeira reação, claro, foi pensar: "Minha filha, passe um batom, mude o corte de cabelo e entenda de uma vez por todas que esse sujeito não te merece". Mas depois me recolhi à minha insignificância e lembrei que a vida real não tem a elegância de um comercial de hotel cinco estrelas. A vida é um samba do Paulinho da Viola — daqueles que reviram as nossas tripas e tiram o nosso sossego.O erro crucial desse pobre pichador anônimo foi o erro de dez entre dez mulheres bem-nascidas: a insistência em esperar alguma nobreza de um coração leviano. Vamos ser francas? Um homem leviano não pertence a ninguém. Ele é incapaz de se sintonizar com o ritmo de qualquer outra pessoa. É um egoísta nato, e contra isso não há charme que dê jeito.Ninguém sã se joga em um mar tempestuoso por escolha. Mas a verdade é que, às vezes, uma boa sacudida dessas nos devolve o bom senso. Mostra que o tédio da calmaria é um horror. Água morna, afinal, só serve para banheira — e, se for para estar numa banheira, que seja muitíssimo bem-acompanhada, por favor.Foi aí que me veio à mente a maravilhosa Rita Lee, que entendia de pecado e de prazer como ninguém. Imaginei a resposta perfeita para aquela lamentação na parede: "Que tal nós dois numa banheira de espuma?".Pronto. É disso que o mundo precisa: menos melodrama e mais audácia. Se o samba do Paulinho nos ensina a diagnosticar o canalha, o rock da Rita nos ensina o que fazer com ele depois que a porta se fecha. No balanço final, a vida é exatamente isso: a dor de cabeça do dia seguinte e a delícia de um banho de espuma bem compartilhado
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Olho para essa foto e sinto o baque: quatorze anos se passaram. Quanta coisa a gente vive num intervalo assim, quanta estrada caminha, quantos nós desata. Olhar para o passado é um exercício de costura; vamos recolhendo retalhos de quem fomos, etapas inteiras que ficaram pelo caminho, e alinhavando tudo na memória para entender o desenho da nossa própria história.Houve um tempo em que minha vida era puro movimento, dividida entre a arte do teatro, a liberdade da dança e a magia dos figurinos. Eu não queria o morno. Sambava em todos os eixos possíveis para que meus alunos fossem além, para que o trabalho deles gritasse e virasse assunto na cidade por dias a fio. E confesso, com uma ponta de saudade e graça: naquela época, eu adorava o desconforto que causava. Gostava de saber que me olhavam torto, que cochichavam ou davam risada pelas minhas costas. O que aquela gente não entendia é que aquilo não era provocação barata; era uma paixão visceral pela vida. Era o desejo urgente de empurrar as paredes da escola e mostrar que dava para viver fora da caixa. Minhas ideias transgrediam o óbvio, o cotidiano cinza, as regras comuns. Eu tinha essa urgência de extrair poesia e contexto de cada canto.Aquela coroação, que encerrava o mês de Maio dedicado a Maria, foi o ápice disso. O tema era Nossa Senhora do Rosário, mas não a versão higienizada e tradicional que o manual ensina. Escolhemos contar a história da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos — aquela que recusava o altar de ouro dos senhores e fugia para encontrar o acalento nas águas de Janaina. Era uma narrativa sobre os escravizados que clamavam por liberdade, e não sobre os brancos que ajoelhavam para implorar milagres enquanto mantinham as correntes bem presas.Ainda consigo ouvir o som. As crianças com chocalhos amarrados nos pés, os tambores crioulos ecoando com força e respeito dentro das paredes da igreja, as vozes miúdas cantando cantigas de roda saídas das mães pretas e das senzalas. O grito de "Coroa a Santa!" misturado ao louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Era pele, era tambor, era a história sendo reescrita ali, na nossa frente.Naquele tempo, Colibri não era só um passarinho, era uma escola inteira de vida. E Cidinha, Cicida, Sueli e Marivalda não ocupavam cargos burocráticos de coordenação; elas eram parcerias de alma, legítimas criadoras de histórias. Um tempo lindo, denso e corajoso, que o tempo não apaga e que hoje descansa em mim feito puro amor.
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