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quinta-feira, 19 de março de 2026

O Jogo, o Manual e as Terras Mineiras

Dizem que a vida é um jogo, mas esqueceram de avisar que o manual de instruções muda conforme a fase. A regra é curta e grossa: só avança o sinal quem tem coragem — e, convenhamos, "bala na agulha" para segurar o rojão se a multa vier. Se você é o dono do banco ou tem a caneta na mão, o tombo é de veludo. Para o resto de nós, meros mortais, o que chamamos de bravura é, quase sempre, puro desespero. A distância entre o querer e o fazer esbarra sempre em quem manda no mundo. E vamos falar a verdade: quando o tombo vem de cima, a dor demora a passar. Séculos atrás — ou foi impressão minha? — voltei de Portugal com uma ferida que eu jurava ser eterna. Foram dois anos em "banho-maria", até que o eixo alinhou e a coragem de recomeçar brotou de novo. Com tudo o que se tem direito, é claro. Oito anos depois, aqui estou: entre o embarque e o desembarque em Belo Horizonte. É um "trem" doido, esse de idas e vindas. Eu e BH temos um caso de amor de cinema, com trilha sonora romântica e aqueles roteiros de drama e decepção que a gente finge que detesta, mas adora. No fim das contas, começar é ímpeto. Mas recomeçar? Ah, isso é para quem sabe jogar de verdade. A vida é esse duplo sentido eterno: ou você acelera ou adia; ou toma uma atitude ou vira paisagem. E enquanto o mundo não acaba com a gente, eu sigo por aqui. Entre a coragem de fazer e a teimosia de continuar, em terras mineiras

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

O Luxo de Não Ter Nada

                                                                    O tempo é de uma maldade sem fim: ele nos obriga a carregar tralhas. Volto de quinze dias de viagem, entre o Natal e o Réveillon, e a vida tenta tomar forma. Dizem por aí: "ano novo, vida nova". Bobagem. O ano é novo, mas a alma insiste em arrastar coisas velhas, pesadas, que deveriam ter ficado pelo caminho. Falar em tralhas me lembra das malas. Existe algo mais deprimente do que desfazer malas? Lavar, passar, guardar… uma sucessão de gestos inúteis. O ideal seria deixar a bagagem para trás e entrar em casa apenas com o essencial na mão. O que é o essencial? Documentos, cartões, óculos escuros e dinheiro para uma emergência — porque emergências acontecem, e geralmente custam caro. Na bolsa de mão, o mínimo para a sobrevivência digna: um tapa-olho, escova de dentes, hidratante e protetor solar (afinal, até as luzes de LED hoje parecem querer nos matar). Para o tempo passar, um livro. Para o resto, um Lexotan. O mundo seria infinitamente mais elegante sem filas e sem esse excesso de bagagem que as pessoas insistem em ostentar. Abro o armário e decido: limpeza geral. Papéis, contas de dois anos atrás, lembretes de coisas que já esqueci. Tralha, puro entulho. Até que chego nela: a caixa de Pandora. Aquela que a gente não abre há séculos, mas que guarda cadernos com palavras que te puxam pelo braço de volta ao passado. Dizem que é vivência. Eu digo que é peso morto. Cartas, telegramas, cartões de aniversário — o museu de um tempo que já deu o que tinha que dar. Se foi bom, ficou na memória; se não ficou, não é um pedaço de papel que vai salvar. Olho para aquilo tudo, para as fotos e os cartões-postais de quem já nem sei onde anda, e não tenho dúvidas: saco de lixo. Viver é saber descartar. O resto é sentimentalismo barato

domingo, 27 de outubro de 2019

Domingo, mon amour (ou quase isso)

Ah, o domingo... esse dia de uma preguiça vasta e um tédio que, se não for bem administrado, vira tragédia. Se você tem menos de vinte anos, acorde e agradeça à sua santa resiliência pela ressaca, pela balada de ontem e por ter voltado para casa sem a menor ideia de como chegou. É um privilégio da juventude ser um completo desastre e sair ileso. Agora, se você já dobrou o cabo dos quarenta — e espero que tenha chegado aqui com alguma elegância —, o ritual é outro. Acorde, agradeça por estar viva e faça um alongamento breve; é preciso colocar os ossos no lugar antes que eles decidam se aposentar por conta própria. Tome seu café, mas tome com calma, e saia para contemplar. Pegue a bicicleta, sinta o vento no rosto e vá visitar aquela amiga que sabe rir. Ria dela, ria de você, ria com ela. É o melhor Botox que existe. Mas atenção: visite a família com cronômetro na mão. Família é uma delícia quando deixa aquele gosto de "quero mais"; quando a visita se estende, vira inventário de mágoas. Aliás, aprenda de uma vez: visita, seja de horas ou de dias, segue a regra do peixe. Passou do tempo, começa a cheirar mal. Mantenha o mistério, apareça pouco para que sintam sua falta. Procure um Flamboyant, sente-se à sombra e hidrate-se. Aos vinte, a gente sobrevive no seco; aos quarenta, se não beber água, a pele murcha como um linho mal passado. Ouça Milton Nascimento. Deixe que a voz dele te atravesse, e se uma lágrima vier, não lute contra. Chorar limpa o globo ocular e expulsa os demônios que a gente insiste em guardar na bolsa. É uma higiene necessária. Depois dessa faxina na alma, volte para casa. Grite se tiver vontade, dance sozinha na sala, vadie sem culpa. A vadiagem é uma arte subestimada. E, por favor, um apelo à sua dignidade: se a solidão de domingo bater à porta, lembre-se que você é sua companhia mais interessante. Nada de pegar o celular para mandar mensagem para quem não te merece ou não te dá a menor confiança. Ter classe é, acima de tudo, saber a hora de retirar o time de campo. Na dúvida, uma gota de Rivotril, um sono profundo e só acorde com a trilha do Fantástico. A segunda-feira chega para todo mundo, mas que ela te encontre, ao menos, devidamente descansada e com o orgulho intacto.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Ensaio fotográfico Maria Fernanda

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Porto: Um Fado para Chamar de Meu

Navegar é preciso, já dizia o poeta, mas desembarcar? Ah, desembarcar exige um tipo de coragem que não se vende em free shop. Chegar ao Porto foi um desses saltos no escuro que a gente dá quando percebe que a vida, coitada, anda precisando de um sacolejo ético e estético. Pousei com aquela ansiedade um pouco cafona, confesso, de quem busca um rosto mineiro na multidão, um cheiro de Minas, um jeito de Campos Gerais. Não encontrei, claro. O que encontrei foram dois policiais com um sotaque que parecia música antiga — um fado que eu nem sabia que lembrava a letra. Foram gentis, o que hoje em dia é a maior das elegâncias. Passar pela alfândega é o grande divisor de águas: de um lado você é uma mala e um passaporte; do outro, o mundo resolve se abrir. E lá estava ele. Aquele sorriso largo, o rosto que eu vim buscar do outro lado do oceano. Senti aquele calafrio na espinha que cashmere nenhum resolve. Um abraço que parou o relógio, um beijo e a frase: "Bem-vinda ao Porto". Pronto. A turbulência interna pediu licença e foi embora. O Porto não tem pressa; ele se entrega aos poucos, como quem sabe que é irresistível. Tem o grito das gaivotas ( para mim ainda um bicho pre histórico)— a trilha sonora oficial — e um sol tímido, desses que fingem que não queimam, mas que fazem um bem danado à alma. Fomos seguindo o GPS, mas se a gente errasse o caminho, que importância teria? Se eu me perdesse, acabaria me encontrando naquelas ruas que parecem cenário de livro, naquelas fachadas de azulejos que a gente cansa de ver em revista, mas que, ao vivo, têm outro sabor. Vi a Rotunda da Boavista, com aquele monumento aos heróis de guerra que é um deslumbre. E depois, entre um gole de vinho e outro, fui fazendo do Porto a minha casa. A Rua das Flores e a Santa Catarina são para o consumo, as Galerias de Paris são para quem ainda tem fôlego aos 20 anos, e a Almada e os Aliados têm aquela imponência que impõe respeito. Mas Cedofeita... ah, Cedofeita é o coração da cidade, mesmo quando chove (e como chove!). Dizer que é divino é pouco. Divino mesmo é descobrir que a gente viaja para ver o mundo, mas o que vale a pena — o que fica mesmo na memória — é quem está segurando a nossa mão enquanto a vida passa pela janela. O resto, convenhamos, é apenas Paisagem!

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A Gente se Perde no Meio do Caminho

Outro dia, na cadeira do dentista — o único lugar onde a gente é obrigado a ficar quieta e pensar na vida enquanto alguém mexe no que é nosso — me peguei divagando sobre essa mania que as pessoas têm de esperar sem saber exatamente o quê. É um perigo. Porque, convenhamos, se você não sabe o que procura, quando encontra, não sabe o que fazer com aquilo. É como ganhar um presente caríssimo e não ter ocasião para usar. Uma bobagem. Ouvi um burburinho sobre a cidade, gente reclamando dos rumos que as coisas tomaram. E parei para pensar: mas o que foi mesmo que a gente perdeu no meio do caminho? Para saber o que falta, é preciso lembrar de onde viemos. E a nossa história, vamos falar a verdade, foi sendo escrita no improviso. Trouxeram gente de fora para as colheitas. As famílias cresceram, o trabalho acabou, mas a coragem de ir embora se esgotou antes do dinheiro. E o que fizeram os nossos administradores? Nada, meu bem. Faltou aquela "fabriqueta", um emprego qualquer, um plano que fosse. Deixaram as pessoas se amontoarem nos arredores, como se a cidade fosse um armário que a gente vai entulhando e finge que não vê a bagunça. Depois, para completar o cenário, mandaram o presídio. E com ele veio o pacote completo: famílias, amigos, o movimento todo. Esqueceram apenas de um detalhe "bobo": policiamento, segurança, uma promotoria que batesse o pé. É aquela velha história de convidar para o jantar e não por a mesa. E os nossos vereadores? Ah, esses são um espetáculo à parte. No palanque, juram ser os fiscais do povo. Mas, na prática, transformam a Câmara num "Xou da Xuxa". É beijinho para cá, ringue de luta livre para lá, um bate-boca sobre quem fez menos. No fim das contas, esquecem que estão ali para representar a gente, com dignidade, e não para dar show. No final desse tratamento de canal emocional, a pergunta que fica é: o que esperar quando se está esperando? Talvez a resposta seja que a gente se perdeu tanto que nem sente mais falta do que era bom. E o pior cego, você sabe, é aquele que não quer ver que a casa está caindo — mas continua esperando o próximo capítulo da novela

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

“Obscenico” é um corpo que deseja e emite desejos. É um corpo que poetiza seus movimentos performáticos, um ser que observa e quer e tem a necessidade em ser observado. Um corpo que faz leitura de outros corpos, com o lirismo de Guilherme Verissimo, e seus fragmentos textuais... Que corpo?! Em qual corpo?! OBSCENICO... A POETICA DO CORPO.