segunda-feira, 3 de agosto de 2026
De Abrigos, Barquinhos e Outros Acontecimentos
A gente passa a vida inteira tentando decifrar grandes palavras. Fidelidade, gratidão, amor. Como se existisse um manual de instruções na cabeceira, pronto para nos dar as respostas. Procuramos o carinho no meio dessa pressa toda, nesse mundo distraído que mal olha nos olhos, que mal tem tempo de notar o outro. E a resposta, quando vem, é de uma simplicidade quase rara: o amor não é um conceito teórico. É trajeto. A gente só encontra o carinho de verdade na trajetória bonita do afeto, bem ali, onde a reciprocidade resolve morar.Mas sejamos sinceros: pensar na trajetória do afeto dá um trabalho danado. É muito mais difícil do que simplesmente sair por aí falando de amor. Trajetórias exigem que a gente olhe para trás. Elas contam histórias, cobram o preço da saudade, cutucam as feridas dos abandonos. Vêm sempre acompanhadas de uma pontinha inevitável de melancolia. Afinal, é no afeto que a gente guarda o que tem de mais precioso e vulnerável: o bendito "querer bem".Acho comovente quem se dedica de corpo e alma ao que ama. Gente que transforma talento em pura doação, só para que o outro possa brilhar. Tem gente que nasce com vocação para ser abrigo — é carinho, amizade e lealdade embrulhados para presente, sem fita métrica. Uma costura bonita do outro com o outro e para o outro, uma mistura fina de Simone de Beauvoir com espírito coletivo. Para alguns, essa trajetória parece um barquinho calmo, navegando em um mar perfeitamente azul.Só que a vida real, a gente sabe, gosta mesmo é de caminhos sinuosos.Tenho uma conhecida, por exemplo, cuja linha de afeto vai direto esbarrar no que ela mais acredita: o amor. Difícil, né? Mas é exatamente isso. Ela se dedica aos sonhos alheios. O amor que poderia ser dela, ela realiza nos outros. O afeto dela é abrir espaço para o outro existir, é acolher, é transformar o dia comum de alguém em uma recordação divina.Afeto, no fim das contas, é isso: amar o que se faz e para quem se faz. É saber que, quando ninguém estiver acreditando, haverá alguém lá para te acolher. Só que, para realizar o sonho do outro, ela abre mão de uma parte dos seus próprios desejos. Errado? De jeito nenhum. Este é o sonho dela. Ela caminha em uma corda bamba, tentando administrar o mundo dos outros e o seu próprio.Fico comovida com o trabalho que ela realiza. E, acima de tudo, com a quantidade de afeto que ela consegue espalhar para quem está em volta. Falta mais disso no mundo
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Vem curar sua nega que chegou de porre lá da boêmia..
O dia começa com samba, em plena manhã, e a trilha sonora — veja você — é Preta Gil. No ponto de ônibus, a vida passa apressada demais, com aquela gente que corre sem saber exatamente para onde. O circular demora, claro. O painel avisa, com uma insistência quase irritante, que o atraso é de cinco minutos. E Preta, aos berros no meu ouvido, insiste na Disritmia de Martinho da Vila. Uma delícia.Fiquei olhando para aquelas pessoas e me perguntei quantas ali não estariam de porre. Mas não de álcool, que isso até tem seu charme; de porre da vida, da sexta-feira, dessa rotina massacrante que insiste em nos engolir. No fundo, todo mundo ali queria apenas uma cama, um bom lençol, ser cuidado ou amar — intensamente, como dois animais. De repente, a playlist pula para Alceu Valença e me obriga a uma pausa dramática para imaginar a cena. Um luxo. Mas logo voltamos para a Preta.A Avenida do Contorno desenha o contorno exato de uma cidade cansada. O trânsito está aquele caos previsível de sexta-feira. Quando finalmente descemos do ônibus, as pessoas correm como se tivessem a missão Apolônico de levar razão ou Luz para alguns falsonaros, lulanaticos ou cedermaiscedo. Uma pressa inútil.Mas o melhor estava por vir. Quando viro a esquina do meu destino, cruzo com um verdadeiro samba-canção em meio ao tumulto: uma loira esplêndida, às sete da manhã, com o skincare impecável, cabelo escovado, levemente maquiada e perfumada. Alta, magra, de jeans, camiseta básica e tênis. Uma afronta. Por um segundo, pensei que o mundo pertencesse apenas às Fernandas Limas da vida.Que bobagem a minha. Fiquei imaginando essa moça ao lado das mulheres da etnia Kayan, aquelas com argolas no pescoço. A verdade é que a beleza é um conceito inteiramente relativo. Não existe essa história de gente feia, bonita, gorda ou magra. Existem pessoas, cada uma com o seu encanto. Agora, cá entre nós: já pensou uma mulher Kayan chegando de porre da boêmia, equilibrando todas aquelas argolas? Pouco provável, mas divertido de imaginar. O mundo sempre precisa de mulheres libertárias.E, quer saber? Hoje eu vou para o samba. Meu corpo exige dançar
segunda-feira, 22 de junho de 2026
Um número que não deveria ir à mesa
De um a cem, que importância tem a idade? Toda, infelizmente. Domingo, numa roda de feijoada ótima — dessas regadas a poucos drinks e filosofias de boteco, uma amiga querida quase teve um surto psicotico. O motivo? Alguém mentiu a idade dela para menos. Um clássico da delicadeza social, mas ela resolveu entrar no coro do feminismo sério e discursar que detesta mentir os anos. Bobagem pura.Sejamos práticos: o mundo é machista, o tempo é cruel e, depois de uma certa idade, a sociedade simplesmente para de olhar. Uma mulher mais velha corre o risco de virar paisagem, não importa se no passado ela foi a Garota do Fantástico ou o maior fetiche nacional. A televisão consome e descarta. Aconteceu com a Xuxa. Aconteceu com a Hebe — que só durou tanto porque tinha aquele exército de velhinhas adoráveis garantindo o ibope. E hoje, quem é que realmente se lembra de Vera Fischer, Tiazinha ou das Sheilas do Tchan? Ninguém. Viraram passado.Essa história de "patrulha da honestidade" para o RG é uma chatice. A verdade nua e crua é que a idade de uma mulher não interessa a ninguém. Há quem tenha uma genética espetacular e pareça vinte anos mais jovem, como essa nossa amiga. Mas a natureza é injusta e dá rasteiras: outras coitadas aparentam mais anos do que têm e ainda são obrigadas a ouvir um "Só isso?" de algum indiscreto. Perguntar a idade de alguém deveria ser proibido por lei, até na fila do passaporte. É de uma falta de elegância sem tamanho.Glória Maria é que estava certa. Morreu chiquérrima, levando o segredo para o túmulo e deixando o Brasil inteiro morrendo de curiosidade. Eu sigo a lição: até hoje engano a minha própria mãe sobre os meus anos. Ela se confunde toda nos cálculos e eu acho uma delícia. Não há nada mais libertador — para homens ou mulheres — do que não carregar um número na testa.A vida é para ser vivida sem essa contabilidade chata. Se passarmos dos oitenta com saúde, a cabeça no lugar e os dentes na boca, já estamos no lucro total. O mundo anda tão caótico que tem me deixado de cabelos em pé — no meu caso, sem cabelo nenhum, o que facilita as coisas.Mas o que eu gosto mesmo é de ver essa nova turma de veteranos que não fica em casa esperando o fim. Gente que se arruma, ocupa os teatros, os cinemas, viaja e toma conta das ruas com total autonomia. Envelhecer fazendo o que dá na telha é o verdadeiro luxo. O resto é bobagem de quem não tem mais o que inventar. Afinal, a quem interessa o ano em que você nasceu
sexta-feira, 19 de junho de 2026
A elegância na casa da minha avó era um acontecimento. Logo na entrada da sala, revelava-se aquela atmosfera típica das boas — e tradicionais — casas mineiras: uma mesa imensa com doze cadeiras, um bufê impecável que guardava as louças mais finas, talheres de verdade e toalhas com bicos de crochê impecáveis. Aliás, detalhe fundamental: a linha precisava ser a Mercer Crochet, comprada religiosamente no armarinho "Dolinha". Havia um código de sofisticação que começava na escolha do fio.Ao lado do bufê, a cristaleira exibia compoteiras, taças coloridas para cada tipo de bebida e duas bandejas de fainça floral que eram um deslumbre. O jogo de café já ficava montado na bandeja, esperando a vida acontecer. Havia prata, havia saladeiras requintadas, havia pompa. Era um tempo em que as horas pareciam correr mais devagar, ou talvez fôssemos nós que sabíamos gastá-las com mais elegância.A mesa posta seguia uma etiqueta tão rígida, com tanta parafernalha de talheres e pratos, que frequentemente havia mais utensílios do que convidados. Mas era assim que se demonstrava carinho: recebendo bem. (Um parêntese: algumas avós preferem colecionar livros, amigos e títulos do Atlético — não é, Mariângela? Essa minha amiga, sim, sabe o que é ter história).Pois bem. Ontem, flanando pela Modernos Eternos — aquela mostra divina de arquitetura e arte em BH —, cruzei com a Dona Karminha, uma mulher encantadora, dona de um antiquário fabuloso. O encontro me trouxe um vento de nostalgia. Ela, com muita propriedade, me perguntou: "O que aconteceu com as pessoas? Por que ninguém mais usa essas coisas e está tudo tão sem graça?".Concordei na hora. Hoje, a tal da "praticidade" virou desculpa para a preguiça social. Não falo da pressa do cotidiano, mas da covardia de não querer ter o trabalho de fazer um café para o outro, de não abrir a casa, de almoçar em qualquer balcão sem a menor intimidade com o chef. As pessoas desaprenderam os truques de um arroz solto ou de uma carne suculenta. O bom gosto foi extinto. A elegância morreu.Hoje, o mundo está cheio de gente "fazendo e acontecendo" em vídeos de um minuto no Instagram, dando dicas que ninguém pediu. O tempo livre e generoso acabou. Antigamente, o luxo era a visita sem hora marcada. Você ia ver um amigo e o anfitrião fazia você se sentir a pessoa mais importante do planeta. E a gente retribuía: levava um bolo ou amanteigados que ficavam divinos em uma bomboniere de vidro. Isso, sim, é chique.Hoje, se a criatura te recebe com um Tupperware, você já está no lucro. A maioria decaiu a ponto de guardar biscoitos em potes de sorvete. É uma tragédia em três atos: gastronômico, visual e horroroso. Gastronômico porque o plástico destrói o sabor do amanteigado; visual porque poucas coisas são tão deprimentes quanto um pote de plástico na mesa; e horroroso porque comer algo delicado dali de dentro é o fim da linha.Respondendo à sua pergunta, Karminha: não culpe o dia a dia. O que acabou com a beleza da mesa foi a pura e simples má educação, a falta de compromisso e a total ausência de empatia com o outro. O mundo ficou mais prático, é verdade. Mas ficou tragicamente infeliz
sábado, 13 de junho de 2026
O quintal da nossa infância
Hoje a saudade me pegou pelo braço. Não por conta de um nascimento na família, mas pelo avesso: pela celebração de todas as vidas que já dividiram o mesmo chão. Fui escrever uma mensagem de aniversário para um primo e, sem pedir licença, o passado invadiu a mente. Lembrei de nós. Daquela nossa infância barulhenta e urgente, encenada no quintal da minha avó.Havia uma jabuticabeira imensa e, nela, um balanço improvisado com uma poltrona arredondada que meu tio construiu. Cabiam três crianças empoleiradas ali, espremidas entre o risco e a adrenalina de um voo curto. Naquele tempo, antes de a ala dos "temporões" nascer, éramos apenas oito netos orbitando ao redor de Dona Doquinha. Ela era o nosso sol: uma mulher de corpo imponente, braços gordos e acolhedores — daqueles que só as avós de verdade possuem —, dona de uma voz que conseguia ser firme, baixa e absurdamente suave, tudo ao mesmo tempo.Sua casa era uma típica construção mineira, com um alpendre na frente e um quintal que, aos olhos da nossa miopia infantil, não era um lote: era a própria Floresta Amazônica esperando para ser desbravada. Quando os oito se juntavam, o mundo vinha abaixo. Éramos todos profundamente ciumentos — e, para ser bem sincero, acredito que ainda somos. O bicho pegava quando vinham as netas "de fora" — Juju, Lolô e Cacá. O ciúme é um sentimento curioso na infância; a gente vigia o afeto como quem guarda um tesouro. Se já éramos possessivos com quem estava por perto no dia a dia, a chegada das estrangeiras desestabilizava o império.Nessa época de véspera de férias, a casa mudava de tom. Cheirava a cera em pasta. O chão era esfregado com escovão, num exercício hercúleo que exigia braço e paciência. Mas a recompensa vinha à tarde: o perfume da rosca da rainha, os biscoitinhos da Guiomar e, claro, o bolo de tabuleiro da minha avó. Até hoje eu procuro a receita exata daquele bolo e ninguém sabe me dar. Talvez porque eu não esteja procurando os ingredientes. O que eu procuro, na verdade, é o sabor daquela saudade. Quero a minha avó de volta, meus tios na cozinha e a algazarra das primas desembarcando em Campos Gerais.Vencida a barreira do ciúme inicial, a horta virava o nosso palco de brincadeiras. E, antes que o sol se pusesse, Dona Doquinha nos convocava para o café. A prioridade, obviamente, era das recém-chegadas — o ciúme, esse velho conhecido, assistia a tudo de camarote. Nós, os nativos que desfrutávamos daquela senhora de cabelos acinzentados diariamente, ficávamos para a segunda leva. Minha avó não era do tipo que sentava para contar histórias; esse papel lúdico cabia à minha tia, que comandava as brincadeiras, inventava enredos e recortava bandeirinhas de festa junina. Minha avó era o porto de escuta. A gente chegava com as nossas pequenas tragédias infantis, reclamava do mundo, e ela apenas ouvia. Depois, soltava sua sábia filosofia: "Nada como um dia após o outro". Ela levava nossos dramas tão a sério que entendia que só o tempo e a noite poderiam resolvê-los.Criança também sabe ser cruel na sua lógica maquiavélico. Lembro de um dia em que uma das primas de fora, levada pelo entusiasmo cego da infância, arremessou uma torneira de ferro antiga para o alto. A física, que não perdoa, fez o objeto desabar exatamente na cabeça da Marcela, a prima nativa. O caos estava instalado: sangue, chororô e uma coleção de pontos no couro cabeludo da coitada. Nós, os ciumentos donos da casa, não hesitamos em carimbar a culpa na visitante, ignorando a obviedade do acidente. Para uma criança, a palavra "acidente" simplesmente não existe no dicionário. O mundo se divide estritamente em dois lados: os culpados e os injustiçados.Hoje o Brasil estreia na Copa do Mundo. O futebol já não anda lá essas coisas, mas o espetáculo está garantido por quem vai sentar na mesa de um bar qualquer para bancar o técnico, o juiz, ditar a justiça e, claro, apontar os injustiçados de sempre. Hoje também é o aniversário daquele primo querido, um dos temporões que não chegou a tempo de desbravar a nossa "Amazônia" particular no quintal de Campos Gerais, mas que carrega o mesmo sangue e a mesma história.E, como o destino gosta de costurar coincidências, hoje é dia de Santo Antônio. Meu querido Tonho. Vejo essa obsessão contemporânea de mulheres que sequestram o Menino Jesus do colo do pobre santo para forçar um casamento e fico pensando na loucura disso. Deixem-me clarear uma coisa: o único santo que de fato casou foi São José. Portanto, se querem apelar para quem entende do assunto, roubem o menino do homem certo! Santo Antônio deve passar um aperto danado pensando na prestação de contas que terá que fazer à Mãe de Deus. E mãe, sejamos honestos, é bicho maluco. Uma mãe desesperada pelo sumiço do filho se colocaria na frente de qualquer sequestrador e exigiria ir no lugar dele. Nossa Senhora não faria diferente. Mãe é sempre mãe, seja no altar ou no quintal da nossa infância.Portanto, façam uma prece sensata para São José, deixem que ele resolva a sua solteirice e, por favor, deem um descanso para o Tonho. A vida já é complexa demais para encrencarmos com os santos.
sábado, 30 de maio de 2026
ah o amor! seja como for é o amor! (drummond)
drummond foi um sabio ao falar de amor, acredito que deve ter sido melhor amante que poeta, por escrever tao bem sobre ele,com tamanha precisão. É preciso ter sido um amante formidável antes de se arriscar nos versos.Reparem bem: "amor" deve ser a palavra mais pronunciada no mundo, logo atrás de "Deus". E não venham os ateus me dizer o contrário; na primeira turbulência no avião ou no primeiro sobressalto da vida, o grito que escapa da boca é sempre um "Pelo amor de Deus!". No fundo, é o próprio Criador nos lembrando da urgência desse sentimento que Ele, sem precisar de absolutamente nada em troca, insiste em nutrir por nós. É um luxo divino.Dias atrás, caminhando pelas ruas de Belo Horizonte, deparei-me com as colunas lindamente pintadas pelo artista Rogério Fernandes. Em uma delas, saltava aos olhos a inscrição bíblica: "O amor cobre uma multidão de pecados".(⁰registrada no Novo Testamento, em 1 Pedro 4:8, e também tem um paralelo no Antigo Testamento, em Provérbios 10) Uma frase linda, de um misticismo profundo, que tenta nos convencer de que, enquanto o julgamento alheio afasta e condena, o amor tem o poder elegante de aproximar e restaurar o que foi quebrado.Mas vamos com calma. Será mesmo?Se estivermos falando daquela pureza ingênua e febril dos adolescentes, até dou o braço a torcer. Mas o amor adulto, meus caros, aquele que vem com CPF, compromisso e conta conjunta... esse não perdoa. Se houver um deslize grave, um "pecado" que fira a dignidade, não há elegância ou prece que salve. Nem nesta vida, nem na próxima encarnação. O amor-próprio precisa entrar em cena, e ponto final.A verdade é que nós, humanos, somos seres exagerados. Amamos demais e tudo o que vemos pela frente. Amamos o futebol de domingo, a cerveja trincando no copo, o sol na pele, a praia, as pessoas (algumas), os bichos e as plantas. E amamos as coisas, claro. Gastamos nosso estoque de afeto com sapatos, roupas, bolsas e toda sorte de futilidades que este planeta oferece. Chegamos ao cúmulo da cafonice de amar sacolinhas plásticas em pleno século XXI. Consumismo puro disfarçado de paixão.E já que o assunto descambou para o futebol, a Copa do Mundo bate à porta. Com ela, desperta aquele nosso amor incondicional pelo verde e amarelo. Uma pena, confesso, que a nossa belíssima camisa canarinho tenha sido sequestrada pela militância política nos últimos tempos, deixando de lado o verdadeiro patriotismo, aquele que costumava nos abraçar de quatro em quatro anos.Quem não se lembra do Brasil de 1994? Aquilo, sim, era um time movido a puro amor e brio. Branco, Raí, Cafu, Jorginho, Dunga, Leonardo, Mauro Silva, Taffarel... Homens de verdade em campo, que brigavam até a última gota de suor pelo orgulho nacional. Não havia vaidade que ficasse acima da bandeira.Hoje? Bem, hoje o orgulho nacional atende pelo codinome de "Tigrinho". E quem nos vende essa ilusão no Instagram é ninguém menos que Neymar — um jogador que se diz tão verde e amarelo quanto os heróis de 94, mas que parece preferir os cifrões dos cassinos virtuais ao futebol arte.Para completar o cenário dessa nossa comédia de costumes, surge a sua "tigresa": Virgínia Fonseca. A moça, que já havia causado um burburinho danado nas CPI das Betsfpo parar no palanque da Sapucaí ao desfilar como rainha de bateria da Grande Rio e que agora é a mais nova estrela do jornalismo esportivo da TV Globo para o Mundial. Uma escolha, no mínimo, exótica.Mas, no fim das contas, tudo se faz por amor. Amor ao dinheiro, ao clique, à fama. E o brasileiro, que adora um melodrama, vai sentar na sala, ligar a televisão e fingir que está tudo ótimo. Afinal, como diz a coluna pintada por Rogério Fernandes, amar é exatamente isto: cobrir uma multidão de pecados. Nem que seja para a Globo nos mostrar o recibo depois.
domingo, 24 de maio de 2026
O Domingo Literal
Há manhãs de domingo que nascem com uma cara de inverno total, convidando a gente ao luxo absoluto de invernar. O corpo, cansado das exigências da semana, pede trégua. No rádio, a JB FM dita um ritmo lento e a gente se ve ali. Na Rua Pernambuco, uma pequena joia que so amigos sao capazes de nos apresentar.
A gente acorda meio capenga, mas com aquela necessidade bonita de saber dos amigos, de trocar um afeto logo cedo. Foi assim que começou a nossa saga de domingo, em um vaivém de mensagens que trazia a urgência da vida real:
[24/5 09:09] Luiz: Bom dia, florzinha! Me fale: Como vai você? Eu preciso saber da sua vida
[24/5 09:17] Cristina Holzinger: Bom dia flor! Agradeço à Gira não ser razão da sua paz já esquecida! 😁 Estou bem, querido. Seu diagnóstico foi preciso, acho que tudo se deveu ao hábito pernicioso de ficar 10, 12, 14h00 em cima de um salto, 👠. Estou muito bem,, acabei de pôr as pernas pra baixo, capenga como de hábito, sem dor. Um beijjo. Mais tarde vamos conversar para combinar os horários dessa semana, está bem? Outro beijo.
[24/5 09:29] Luiz: Tá certo! Outro beijo. E chega de ficar capenga, porque desânimo definitivamente não combina com mulher loira, resolvida e com esse espírito meio Las Vegas. Quer saber? Se a energia bater, a gente treina hoje. Se faltar o pique, nos entregamos a uma boa drenagem. E, se o corpo pedir trégua, a gente senta apenas para jogar conversa fora, que também é um santo remédio. O Marcelo terá uma reunião às 11h, e aí o tempo é vadio. Vou tentar me dar ao luxo de invernar neste domingo que, convenhamos, já amanheceu com cara de inverno total. Outros beijos
[24/5 09:35] Cristina Holzinger: Meu querido, eu acho que eu saberia reconhecer assinatura de um escrito seu em qualquer lugar do mundo. Estiloso, o meu amigo, estilo só seu e que eu adoro! Acabei de combinar com LOL e Theozinho pra gente ir por volta de 10 ou 10:30 lá na livraria Ramalhete. Ver livrinhos, sair de casa, tomar à fresca, dar uma força pro Álvaro (a iniciativa de uma livraria de rua tem que ser alimentada de entusiasmo). Vamos? Estou com carro e podemos passar aí e te pegar.
[24/5 09:50] Luiz: Oba
[24/5 09:51] Cristina Holzinger: Que bom! Te ligo quando a gente estiver saindo.
Amigo de verdade tem essa mania linda de ler as nossas entrelinhas. Sabe quando a gente quer recolhimento, mas precisa, na verdade, de um empurrão para a vida. Mas aí bate aquela hesitação típica de quem não quer incomodar, o velho pretexto de deixar o espaço livre para os momentos sagrados de família. A conversa continuou, naquele impasse carinhoso que só os íntimos se permitem:
[24/5 10:11] Luiz: Florzinha, vou declinar do convite hoje. Prefiro deixar o espaço livre para você e as crianças aproveitarem plenamente essa manhã invernal e frescor e sol — esses momentos em família são sagrados. Vamos nos falando e combinamos algo com calma para mais tarde.
[24/5 10:14] Cristina Holzinger: Ô flor, vc sabe que está definitivamente integrado à família, vc e Marcelo, não é? Espero que saiba disso. É só uma chegada lá, ver livros, talvez um café, enquanto o patriarca está conspirando nas mesas de sinuca.
[24/5 10:17] Cristina Holzinger: Não posso demorar lá, tenho que voltar para estudar. Nessa próxima quarta começa a série de 3 ou 4 encontros de Lacan que tem me feito perder o louro originsl dos meus cabelos. Vamos?
[24/5 10:19] Luiz: Kkkk
[24/5 10:19] Luiz: Que horror
[24/5 10:24] Cristina Holzinger: Então vamos?
[24/5 10:25] Luiz: Ok.. venceu pelas cabelos não mais originais
[24/5 10:25] Luiz: 5m fico pronto
[24/5 10:26] Cristina Holzinger: 😂 Blza. Te dou um toque.
[24/5 10:47] Cristina Holzinger: Estamos aqui.
E fomos. Deixamos para trás a preguiça e partimos para essa joia que é a Livraria Ramalhete. Iniciativas assim, de livrarias de rua, são atos de coragem poética que merecem todo o nosso entusiasmo. Lá, fomos recebidos por alguém de um coração tão generoso que chega a causar ciúmes em quem frequenta o lugar. A cerveja estava gelada e a prosa muito boa, mas foi a leitura que nos arrebatou. Quantas pessoas não dariam tudo por um domingo assim, tão literal, cercado de palavras e afetos?
No meio de tudo isso, a vaidade humana — essa nossa velha conhecida — resolveu se meter na literatura. Alguém tentou mudar a frase de um escritor por achar que esquecer é algo corriqueiro demais. Ora, o esquecimento é involuntário, um ato suspenso no tempo de quem sabe que um dia vai lembrar. Mas a vaidade preferiu colocar "Abandonar". E a frase ganhou uma força imensa, dessas que fazem a gente silenciar: "Mas já experimentaste simplesmente... Abandonar?"
Naquela manhã, nós experimentamos. Abandonamos o tédio e o frio da alma. O domingo rendeu longas leituras e tantas outras emoções. Obrigado Álvaro, por nos apresentar tão carinhosamente a uma leitura grandiosa através da Ramalhete. O inverno lá fora continuava, mas a gente já estava devidamente aquecido por dentro.
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