domingo, 17 de maio de 2026
A arte do domingo.
Vamos ser sinceros: domingo é o único dia em que a vida não exige que a gente use máscara. É o dia oficial de praticar o "nadismo", esse luxo absoluto de não fazer absolutamente nada sem pedir desculpas a ninguém. O domingo é desprovido de invenções, de falsas poses.Se você quer encontrar a verdadeira veracidade das coisas — ou, o que é muito melhor, se você quer ver a cidade —, saia às ruas de Belo Horizonte em um domingo. Nunca tive a menor vocação para apresentar fatos ou relatar a realidade como ela é; o que me diverte mesmo é observar as pessoas, olhar as ruas, notar o visual dos outros. Transitar entre os iguais e os ridiculamente diferentes é um dos maiores prazeres da vida, desde que, por favor, seja em um domingo.Na segunda-feira, o espetáculo fica horroroso. As pessoas se digladiam por metros quadrados em calçadas apertadas, correndo frenéticas para chegar a um lugar que, se formos honestas, nem elas sabem direito qual é. Que falta de classe. O domingo, não. O domingo nos permite encontrar os amigos, jogar conversa fora e nos deitarmos ao sol.E chega dessa bobagem neurótica de quilos de filtro solar. Acho um tédio. Isso é obsessão de quem ainda se ilude com estoque de colágeno. Nós, que já passamos dos 50, fomos criadas em uma época infinitamente mais charmosa. O melhor bronzeador era manteiga ou aquele clássico Cenoura & Bronze. Passávamos o dia inteiro esticadas no sol, até a pele ficar devidamente curtida. A única preocupação das nossas mães — que tinham mais o que fazer — não era com rugas, mas sim em garantir que houvesse um vidro de Caladril na geladeira para refrescar a nossa pele no fim do dia. E o mundo continuava girando perfeitamente.Domingo também tem que ter gosto de infância. Tem cara de macarrão, de frango assado comprado pronto e daquele rocambole de batata reconfortante. Domingo tem que ter a trilha sonora de A Noviça Rebelde tocando na sala, buganvílias explodindo em cores nos muros e uma caminhada sem rumo por alguma feira de publicações independentes, cheia de gente fantástica, exótica e interessante.Isso é veracidade ou ver a cidade? Pouco importa. No fundo, é a mesma coisa.Agora, dou o assunto por encerrado e volto para a companhia da Mariza. Ela, que não é boba nem nada, pratica o seu nadismo dormindo ao sol, com a elegância que só os felinos possuem
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Um Homem Para Chamar de Seu (Ou Não)
Caminhando por Belo Horizonte outro dia, dei de cara com uma pichação numa caixa de luz que dizia: "Se eu pudesse eu queria saber o que você pensa enquanto me esquece". Achei de uma cafonice comovente. Aquela típica humilhação pública de quem fica esperando o telefone tocar enquanto o outro já trocou de número, de endereço e de amante.Minha primeira reação, claro, foi pensar: "Minha filha, passe um batom, mude o corte de cabelo e entenda de uma vez por todas que esse sujeito não te merece". Mas depois me recolhi à minha insignificância e lembrei que a vida real não tem a elegância de um comercial de hotel cinco estrelas. A vida é um samba do Paulinho da Viola — daqueles que reviram as nossas tripas e tiram o nosso sossego.O erro crucial desse pobre pichador anônimo foi o erro de dez entre dez mulheres bem-nascidas: a insistência em esperar alguma nobreza de um coração leviano. Vamos ser francas? Um homem leviano não pertence a ninguém. Ele é incapaz de se sintonizar com o ritmo de qualquer outra pessoa. É um egoísta nato, e contra isso não há charme que dê jeito.Ninguém sã se joga em um mar tempestuoso por escolha. Mas a verdade é que, às vezes, uma boa sacudida dessas nos devolve o bom senso. Mostra que o tédio da calmaria é um horror. Água morna, afinal, só serve para banheira — e, se for para estar numa banheira, que seja muitíssimo bem-acompanhada, por favor.Foi aí que me veio à mente a maravilhosa Rita Lee, que entendia de pecado e de prazer como ninguém. Imaginei a resposta perfeita para aquela lamentação na parede: "Que tal nós dois numa banheira de espuma?".Pronto. É disso que o mundo precisa: menos melodrama e mais audácia. Se o samba do Paulinho nos ensina a diagnosticar o canalha, o rock da Rita nos ensina o que fazer com ele depois que a porta se fecha. No balanço final, a vida é exatamente isso: a dor de cabeça do dia seguinte e a delícia de um banho de espuma bem compartilhado
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Olho para essa foto e sinto o baque: quatorze anos se passaram. Quanta coisa a gente vive num intervalo assim, quanta estrada caminha, quantos nós desata. Olhar para o passado é um exercício de costura; vamos recolhendo retalhos de quem fomos, etapas inteiras que ficaram pelo caminho, e alinhavando tudo na memória para entender o desenho da nossa própria história.Houve um tempo em que minha vida era puro movimento, dividida entre a arte do teatro, a liberdade da dança e a magia dos figurinos. Eu não queria o morno. Sambava em todos os eixos possíveis para que meus alunos fossem além, para que o trabalho deles gritasse e virasse assunto na cidade por dias a fio. E confesso, com uma ponta de saudade e graça: naquela época, eu adorava o desconforto que causava. Gostava de saber que me olhavam torto, que cochichavam ou davam risada pelas minhas costas. O que aquela gente não entendia é que aquilo não era provocação barata; era uma paixão visceral pela vida. Era o desejo urgente de empurrar as paredes da escola e mostrar que dava para viver fora da caixa. Minhas ideias transgrediam o óbvio, o cotidiano cinza, as regras comuns. Eu tinha essa urgência de extrair poesia e contexto de cada canto.Aquela coroação, que encerrava o mês de Maio dedicado a Maria, foi o ápice disso. O tema era Nossa Senhora do Rosário, mas não a versão higienizada e tradicional que o manual ensina. Escolhemos contar a história da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos — aquela que recusava o altar de ouro dos senhores e fugia para encontrar o acalento nas águas de Janaina. Era uma narrativa sobre os escravizados que clamavam por liberdade, e não sobre os brancos que ajoelhavam para implorar milagres enquanto mantinham as correntes bem presas.Ainda consigo ouvir o som. As crianças com chocalhos amarrados nos pés, os tambores crioulos ecoando com força e respeito dentro das paredes da igreja, as vozes miúdas cantando cantigas de roda saídas das mães pretas e das senzalas. O grito de "Coroa a Santa!" misturado ao louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Era pele, era tambor, era a história sendo reescrita ali, na nossa frente.Naquele tempo, Colibri não era só um passarinho, era uma escola inteira de vida. E Cidinha, Cicida, Sueli e Marivalda não ocupavam cargos burocráticos de coordenação; elas eram parcerias de alma, legítimas criadoras de histórias. Um tempo lindo, denso e corajoso, que o tempo não apaga e que hoje descansa em mim feito puro amor.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
O Luxo da Fluidez
Acordei bonito. E quando a gente acorda bonito, o mundo parece nos pedir licença. Coloquei minha roupa de ginástica — aquela que não pede desculpas a ninguém — e saí. Eram 8h50 da manhã e a cidade já estava naquele frenesi histérico de quem acha que o mundo vai acabar se não chegar ao escritório no horário.
Cruzei com os mesmos rostos de sempre. Ou quase sempre, quem se importa? Olhei para aqueles homens de terno e gravata, mulheres impecavelmente montadas para serem consumidas por doze horas de uma meta que ninguém sabe bem quem inventou. Eles me olhavam. Um olhar que misturava julgamento e, lá no fundo, uma pontinha de inveja da minha fluidez em plena sexta-feira.
Eles pensam: "Será falta do que fazer?". Mal sabem que é o contrário. É o resultado de uma vida inteira querendo ser exatamente assim: leve. Não há nada mais estressante do que o esgotamento por algo que não nos pertence. Ficar sentado atrás de uma mesa, vendendo a alma para um relatório, é um preço alto demais que eu decidi não pagar.
Lembrei que uma amiga querida postou um texto do Pina:(um texto carregado de fortes emoções, como tudo hoje o dia começou emocionante)"Regresso". Ele tem razão: a gente passa a vida querendo conquistar tesouros, quando o verdadeiro luxo é o essencial. É o pão fresco, o silêncio da casa, a capacidade de não ter pressa. Chegar ao essencial é a maior sofisticação que existe.
E para coroar essa manhã carregada de emoção, coloquei Ney e Azambujo cantando Noel "Último Desejo". Ah, o encontro do Ney com Azambujo... Se você não sentiu uma lágrima correr pelo rosto ouvindo aquilo, você está morto por dentro. É beleza pura, sem filtros.
Acordei feliz porque, finalmente, aprendi a escolher. O dia é belo não porque o sol brilhou, mas porque eu não estou no lugar de ninguém, a não ser no meu!
segunda-feira, 23 de março de 2026
A Elegância de Sair de Cena
Decididamente, eu gosto de Belo Horizonte! Seu dia a dia é um cenário maravilhoso de apreciar. As pessoas são agradáveis e interessantes; algumas podem ser um clichê do cotidiano, mas outras têm um feeling que não dá para explicar. São grandes personagens nesta cidade-megalópole com cara de 'bão demais da conta, sô!'.
A cidade esbanja uma sensualidade em tudo, até em suas pinturas. Na verdade, ela tem um pudor velado e, ao mesmo tempo, algo que 'mostra as canelas'. É um fato bem antigo, que remete aos séculos XVII e XVIII. Em tempos onde quase tudo é permitido, a nudez ainda fica no grupo dos proibidos. Isto porque, nos dias atuais, para ficar pelado você deve estar, no mínimo, com a terapia em dia.
Que nada! Você precisa mesmo é estar com a queratina, o whey protein, o botox, o lifting e o silicone (para as mulheres) ou a testosterona injetável (para os homens), claro! O corpo precisa estar sempre novo e firme, e isso vale para todos: homens, mulheres e gêneros.
Conforme envelhecemos, vamos sendo 'abolidos' do convívio social frenético dos jovens — o que acho prazeroso. Os velhos perderam a vez, mas ganharam uma infinidade de paz. Uma das coisas em que ando transitando muito são as reuniões que começam pouco depois das 15h e, lá entre as 18h e 19h, já estão sendo encerradas.
Que paz! Aí você consegue ir para casa cedo, tomar um banho e descansar, pronto para um novo dia. Diga se isso não é ganhar a paz? E a sorte de não ter que esbarrar em nada que se mova e seja 30 anos mais novo que você.
quinta-feira, 19 de março de 2026
O Jogo, o Manual e as Terras Mineiras
Dizem que a vida é um jogo, mas esqueceram de avisar que o manual de instruções muda conforme a fase. A regra é curta e grossa: só avança o sinal quem tem coragem — e, convenhamos, "bala na agulha" para segurar o rojão se a multa vier. Se você é o dono do banco ou tem a caneta na mão, o tombo é de veludo. Para o resto de nós, meros mortais, o que chamamos de bravura é, quase sempre, puro desespero.
A distância entre o querer e o fazer esbarra sempre em quem manda no mundo. E vamos falar a verdade: quando o tombo vem de cima, a dor demora a passar. Séculos atrás — ou foi impressão minha? — voltei de Portugal com uma ferida que eu jurava ser eterna. Foram dois anos em "banho-maria", até que o eixo alinhou e a coragem de recomeçar brotou de novo. Com tudo o que se tem direito, é claro.
Oito anos depois, aqui estou: entre o embarque e o desembarque em Belo Horizonte. É um "trem" doido, esse de idas e vindas. Eu e BH temos um caso de amor de cinema, com trilha sonora romântica e aqueles roteiros de drama e decepção que a gente finge que detesta, mas adora.
No fim das contas, começar é ímpeto. Mas recomeçar? Ah, isso é para quem sabe jogar de verdade. A vida é esse duplo sentido eterno: ou você acelera ou adia; ou toma uma atitude ou vira paisagem. E enquanto o mundo não acaba com a gente, eu sigo por aqui. Entre a coragem de fazer e a teimosia de continuar, em terras mineiras
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
O Luxo de Não Ter Nada
O tempo é de uma maldade sem fim: ele nos obriga a carregar tralhas. Volto de quinze dias de viagem, entre o Natal e o Réveillon, e a vida tenta tomar forma. Dizem por aí: "ano novo, vida nova". Bobagem. O ano é novo, mas a alma insiste em arrastar coisas velhas, pesadas, que deveriam ter ficado pelo caminho.
Falar em tralhas me lembra das malas. Existe algo mais deprimente do que desfazer malas? Lavar, passar, guardar… uma sucessão de gestos inúteis. O ideal seria deixar a bagagem para trás e entrar em casa apenas com o essencial na mão. O que é o essencial? Documentos, cartões, óculos escuros e dinheiro para uma emergência — porque emergências acontecem, e geralmente custam caro.
Na bolsa de mão, o mínimo para a sobrevivência digna: um tapa-olho, escova de dentes, hidratante e protetor solar (afinal, até as luzes de LED hoje parecem querer nos matar). Para o tempo passar, um livro. Para o resto, um Lexotan. O mundo seria infinitamente mais elegante sem filas e sem esse excesso de bagagem que as pessoas insistem em ostentar.
Abro o armário e decido: limpeza geral. Papéis, contas de dois anos atrás, lembretes de coisas que já esqueci. Tralha, puro entulho. Até que chego nela: a caixa de Pandora. Aquela que a gente não abre há séculos, mas que guarda cadernos com palavras que te puxam pelo braço de volta ao passado.
Dizem que é vivência. Eu digo que é peso morto. Cartas, telegramas, cartões de aniversário — o museu de um tempo que já deu o que tinha que dar. Se foi bom, ficou na memória; se não ficou, não é um pedaço de papel que vai salvar. Olho para aquilo tudo, para as fotos e os cartões-postais de quem já nem sei onde anda, e não tenho dúvidas: saco de lixo.
Viver é saber descartar. O resto é sentimentalismo barato
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