sexta-feira, 22 de maio de 2026
A Ditadura dos Tópicos
A gente passa a vida fazendo listas. As de fim de ano, convenhamos, são um clássico da enganação. Prometer academia, dieta e a ilusão de ser uma pessoa melhor é quase um ritual de passagem que, com sorte, sobrevive até o dia 3 de janeiro. Mas o século XXI, sempre tão exagerado, elevou isso ao nível da pura paranoia. A vida agora virou um manual de instruções fatiado em fascículos. Uma chatice.Dizem que para ser saudável é preciso dormir exatamente oito horas, colocar a garrafa de água bem na frente do nariz para não esquecer de beber, e deixar o despertador no corredor para se obrigar a levantar. Para comer bem, só falta sugerirem pendurar um brócolis na testa. Viramos reféns de estupidas-humilhações diárias para tentar enganar a nossa própria — e tão legítima — preguiça.Que o Oswaldo Montenegro me perdoe, mas aquela música dele, Faça uma Lista, sempre me pareceu de uma chatice sem fim. Começava com os melhores amigos e logo virava uma DR melancólica sobre quem sumiu do mapa. Isso nos anos 90! Se naquela época eu já achava um porre, imagine hoje. Fomos engolidos pela ditadura das redes sociais. É a lista dos doze passos para o skincare — que te deixa com a cara brilhando de óleo, mas sem um tostão no bolso —, as dez regras para o corpo perfeito, a última dieta da moda... E, no meio desse tiroteio, a gente tenta encaixar a humilde lista do supermercado e aqueles restaurantes caríssimos e barulhentos que as pessoas frequentam só para parecerem jovens e descoladas. Que cansaço.Houve um tempo em que a única lista que importava era a telefônica. Aquele calhamaço amarelo, pesado, que servia tanto para achar um endereço quanto para calçar mesa bamba. Era um caos visual, mas resolvia a vida. Nossas mães faziam a lista de compras no verso de um convite de casamento — aqueles que os noivos sofriam para selecionar quem seriam os agraciados. Eu mesmo fui a poucos. No fim do ano, o checklist era um agrado singelo para os santos: vela, flores, canjica. Uma fé prática, sem drama.Hoje, criamos inventários para tudo, da alface à crise existencial. No mercado, o aplicativo dita as ordens. Nas redes, os blogueiros do momento — todos escandalosamente lindos e operados, porque gente feia não ganha curtida nem em lista de chamada escolar — vendem a ilusão da felicidade em tópicos. Mostram tantas novidades com nomes difíceis que, confesso, dá uma saudade imensa das iogurteiras Top Therm vendidas na TV. A gente quer acreditar no milagre, no fundo é isso.Por puro masoquismo, tenho espiado algumas listas espirituais ultimamente. Quero descobrir quais são os sete passos imperdíveis para tentar ser uma pessoa boa nesta encarnação. Se vou conseguir? Claro que não. É coisa demais para a gente entender, saber e fazer. Mas de uma coisa eu tenho certeza: se a minha iluminação depender dessa mania de listar a vida, eu vou direto para o inferno. Mas entrarei lá sendo, oficialmente, a pessoa mais elegante e organizado do universo. E talvez, pensando bem, o diabo só precise de alguém de bom gosto para arrumar as gavetas dele.Só não me venham com receitas prontas. Acorde bem em sete passos, fale frases para elevar o espírito... Poupe-me. Prefiro o imprevisto do dia a dia à manipulação da chatice humana...
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