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sábado, 11 de dezembro de 2010

Qual foi a sua criação?


Dizem que fomos criados para o embate, para o "macho" que a sociedade exige. Bobagem. No fundo, todos fomos projetados para ser a princesinha da vovó. Queríamos os cachos dourados, o príncipe (que fosse rico, por favor), o palácio e um exército de governantas. E dinheiro, claro. Muito dinheiro. Dinheiro é fundamental para não se ter que pensar nele. Outro dia, numa conversa de Facebook, confessei a um amigo: fui criado para ser dondoca. Nasci para o privilégio, para o conforto de quem não precisa ralar. Ele, com aquela grosseria pedagógica tão em voga, mandou-me "acordar do sonho". Que falta de estilo. Eu adoraria ser Alice e cair no buraco — mas sem o chá alucinógeno, que essas coisas dão uma ressaca pavorosa. O que eu quero é o crescimento, a magia, mas sem o retorno cafona à fazenda. Dorothy, coitada, tinha aquela obsessão em voltar para o Kansas, para a tia Emily e para o tsunami. Eu? Jamais. Fazenda é um conceito que só funciona em dois estados: nas lembranças da infância ou nas férias, com data de validade curtíssima. E vamos combinar: fazenda só é suportável se tiver Wi-Fi, TV a cabo, livros ótimos, gente interessante e um carro na porta. Para o caso de, a qualquer momento, o "ar puro" e o excesso de verde começarem a irritar. Porque irritam. Essa história de "um amor e uma cabana" é uma das maiores mentiras da humanidade. Só se aceita uma cabana se ela for em Bali, durante a lua de mel, e com serviço de quarto vinte e quatro horas. Fora isso, é programa de índio. Pessoa já dizia que o verde das árvores é velho e as folhas murcham antes de aparecer. Ele tinha razão. Natureza é bom para olhar da janela de um hotel cinco estrelas. O que é bom mesmo é ser o neto da vovó. Tenho saudades das minhas. Uma era pimenta: desbocada, divertida, adorava o mundo e as vizinhas (os netos vinham em segundo plano, o que tinha seu charme). A outra era o açúcar em pessoa. Doces mineiros, figos em calda, abóbora cristalizada... De comer rezando. Mas — atenção ao detalhe — tudo isso devidamente servido à mesa, sem que eu precisasse chegar perto de uma vaca às cinco da manhã para tirar o leite. Existe algo melhor do que ser a "princesinha"? Ter regalias, ser bem criado e acreditar piamente que o mundo orbita em torno do seu próprio umbigo? Se as avós dominassem o mundo, seríamos todos muito mais felizes. E, com certeza, muito mais bem vestidos