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domingo, 24 de maio de 2026

O Domingo Literal

Há manhãs de domingo que nascem com uma cara de inverno total, convidando a gente ao luxo absoluto de invernar. O corpo, cansado das exigências da semana, pede trégua. No rádio, a JB FM dita um ritmo lento e a gente se ve ali. Na Rua Pernambuco, uma pequena joia que so amigos sao capazes de nos apresentar. A gente acorda meio capenga, mas com aquela necessidade bonita de saber dos amigos, de trocar um afeto logo cedo. Foi assim que começou a nossa saga de domingo, em um vaivém de mensagens que trazia a urgência da vida real: [24/5 09:09] Luiz: Bom dia, florzinha! Me fale: Como vai você? Eu preciso saber da sua vida [24/5 09:17] Cristina Holzinger: Bom dia flor! Agradeço à Gira não ser razão da sua paz já esquecida! 😁 Estou bem, querido. Seu diagnóstico foi preciso, acho que tudo se deveu ao hábito pernicioso de ficar 10, 12, 14h00 em cima de um salto, 👠. Estou muito bem,, acabei de pôr as pernas pra baixo, capenga como de hábito, sem dor. Um beijjo. Mais tarde vamos conversar para combinar os horários dessa semana, está bem? Outro beijo. [24/5 09:29] Luiz: Tá certo! Outro beijo. E chega de ficar capenga, porque desânimo definitivamente não combina com mulher loira, resolvida e com esse espírito meio Las Vegas. Quer saber? Se a energia bater, a gente treina hoje. Se faltar o pique, nos entregamos a uma boa drenagem. E, se o corpo pedir trégua, a gente senta apenas para jogar conversa fora, que também é um santo remédio. O Marcelo terá uma reunião às 11h, e aí o tempo é vadio. Vou tentar me dar ao luxo de invernar neste domingo que, convenhamos, já amanheceu com cara de inverno total. Outros beijos [24/5 09:35] Cristina Holzinger: Meu querido, eu acho que eu saberia reconhecer assinatura de um escrito seu em qualquer lugar do mundo. Estiloso, o meu amigo, estilo só seu e que eu adoro! Acabei de combinar com LOL e Theozinho pra gente ir por volta de 10 ou 10:30 lá na livraria Ramalhete. Ver livrinhos, sair de casa, tomar à fresca, dar uma força pro Álvaro (a iniciativa de uma livraria de rua tem que ser alimentada de entusiasmo). Vamos? Estou com carro e podemos passar aí e te pegar. [24/5 09:50] Luiz: Oba [24/5 09:51] Cristina Holzinger: Que bom! Te ligo quando a gente estiver saindo. Amigo de verdade tem essa mania linda de ler as nossas entrelinhas. Sabe quando a gente quer recolhimento, mas precisa, na verdade, de um empurrão para a vida. Mas aí bate aquela hesitação típica de quem não quer incomodar, o velho pretexto de deixar o espaço livre para os momentos sagrados de família. A conversa continuou, naquele impasse carinhoso que só os íntimos se permitem: [24/5 10:11] Luiz: Florzinha, vou declinar do convite hoje. Prefiro deixar o espaço livre para você e as crianças aproveitarem plenamente essa manhã invernal e frescor e sol — esses momentos em família são sagrados. Vamos nos falando e combinamos algo com calma para mais tarde. [24/5 10:14] Cristina Holzinger: Ô flor, vc sabe que está definitivamente integrado à família, vc e Marcelo, não é? Espero que saiba disso. É só uma chegada lá, ver livros, talvez um café, enquanto o patriarca está conspirando nas mesas de sinuca. [24/5 10:17] Cristina Holzinger: Não posso demorar lá, tenho que voltar para estudar. Nessa próxima quarta começa a série de 3 ou 4 encontros de Lacan que tem me feito perder o louro originsl dos meus cabelos. Vamos? [24/5 10:19] Luiz: Kkkk [24/5 10:19] Luiz: Que horror [24/5 10:24] Cristina Holzinger: Então vamos? [24/5 10:25] Luiz: Ok.. venceu pelas cabelos não mais originais [24/5 10:25] Luiz: 5m fico pronto [24/5 10:26] Cristina Holzinger: 😂 Blza. Te dou um toque. [24/5 10:47] Cristina Holzinger: Estamos aqui. E fomos. Deixamos para trás a preguiça e partimos para essa joia que é a Livraria Ramalhete. Iniciativas assim, de livrarias de rua, são atos de coragem poética que merecem todo o nosso entusiasmo. Lá, fomos recebidos por alguém de um coração tão generoso que chega a causar ciúmes em quem frequenta o lugar. A cerveja estava gelada e a prosa muito boa, mas foi a leitura que nos arrebatou. Quantas pessoas não dariam tudo por um domingo assim, tão literal, cercado de palavras e afetos? No meio de tudo isso, a vaidade humana — essa nossa velha conhecida — resolveu se meter na literatura. Alguém tentou mudar a frase de um escritor por achar que esquecer é algo corriqueiro demais. Ora, o esquecimento é involuntário, um ato suspenso no tempo de quem sabe que um dia vai lembrar. Mas a vaidade preferiu colocar "Abandonar". E a frase ganhou uma força imensa, dessas que fazem a gente silenciar: "Mas já experimentaste simplesmente... Abandonar?" Naquela manhã, nós experimentamos. Abandonamos o tédio e o frio da alma. O domingo rendeu longas leituras e tantas outras emoções. Obrigado Álvaro, por nos apresentar tão carinhosamente a uma leitura grandiosa através da Ramalhete. O inverno lá fora continuava, mas a gente já estava devidamente aquecido por dentro.

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