segunda-feira, 22 de junho de 2026
Um número que não deveria ir à mesa
De um a cem, que importância tem a idade? Toda, infelizmente. Domingo, numa roda de feijoada ótima — dessas regadas a poucos drinks e filosofias de boteco, uma amiga querida quase teve um surto psicotico. O motivo? Alguém mentiu a idade dela para menos. Um clássico da delicadeza social, mas ela resolveu entrar no coro do feminismo sério e discursar que detesta mentir os anos. Bobagem pura.Sejamos práticos: o mundo é machista, o tempo é cruel e, depois de uma certa idade, a sociedade simplesmente para de olhar. Uma mulher mais velha corre o risco de virar paisagem, não importa se no passado ela foi a Garota do Fantástico ou o maior fetiche nacional. A televisão consome e descarta. Aconteceu com a Xuxa. Aconteceu com a Hebe — que só durou tanto porque tinha aquele exército de velhinhas adoráveis garantindo o ibope. E hoje, quem é que realmente se lembra de Vera Fischer, Tiazinha ou das Sheilas do Tchan? Ninguém. Viraram passado.Essa história de "patrulha da honestidade" para o RG é uma chatice. A verdade nua e crua é que a idade de uma mulher não interessa a ninguém. Há quem tenha uma genética espetacular e pareça vinte anos mais jovem, como essa nossa amiga. Mas a natureza é injusta e dá rasteiras: outras coitadas aparentam mais anos do que têm e ainda são obrigadas a ouvir um "Só isso?" de algum indiscreto. Perguntar a idade de alguém deveria ser proibido por lei, até na fila do passaporte. É de uma falta de elegância sem tamanho.Glória Maria é que estava certa. Morreu chiquérrima, levando o segredo para o túmulo e deixando o Brasil inteiro morrendo de curiosidade. Eu sigo a lição: até hoje engano a minha própria mãe sobre os meus anos. Ela se confunde toda nos cálculos e eu acho uma delícia. Não há nada mais libertador — para homens ou mulheres — do que não carregar um número na testa.A vida é para ser vivida sem essa contabilidade chata. Se passarmos dos oitenta com saúde, a cabeça no lugar e os dentes na boca, já estamos no lucro total. O mundo anda tão caótico que tem me deixado de cabelos em pé — no meu caso, sem cabelo nenhum, o que facilita as coisas.Mas o que eu gosto mesmo é de ver essa nova turma de veteranos que não fica em casa esperando o fim. Gente que se arruma, ocupa os teatros, os cinemas, viaja e toma conta das ruas com total autonomia. Envelhecer fazendo o que dá na telha é o verdadeiro luxo. O resto é bobagem de quem não tem mais o que inventar. Afinal, a quem interessa o ano em que você nasceu
sexta-feira, 19 de junho de 2026
A elegância na casa da minha avó era um acontecimento. Logo na entrada da sala, revelava-se aquela atmosfera típica das boas — e tradicionais — casas mineiras: uma mesa imensa com doze cadeiras, um bufê impecável que guardava as louças mais finas, talheres de verdade e toalhas com bicos de crochê impecáveis. Aliás, detalhe fundamental: a linha precisava ser a Mercer Crochet, comprada religiosamente no armarinho "Dolinha". Havia um código de sofisticação que começava na escolha do fio.Ao lado do bufê, a cristaleira exibia compoteiras, taças coloridas para cada tipo de bebida e duas bandejas de fainça floral que eram um deslumbre. O jogo de café já ficava montado na bandeja, esperando a vida acontecer. Havia prata, havia saladeiras requintadas, havia pompa. Era um tempo em que as horas pareciam correr mais devagar, ou talvez fôssemos nós que sabíamos gastá-las com mais elegância.A mesa posta seguia uma etiqueta tão rígida, com tanta parafernalha de talheres e pratos, que frequentemente havia mais utensílios do que convidados. Mas era assim que se demonstrava carinho: recebendo bem. (Um parêntese: algumas avós preferem colecionar livros, amigos e títulos do Atlético — não é, Mariângela? Essa minha amiga, sim, sabe o que é ter história).Pois bem. Ontem, flanando pela Modernos Eternos — aquela mostra divina de arquitetura e arte em BH —, cruzei com a Dona Karminha, uma mulher encantadora, dona de um antiquário fabuloso. O encontro me trouxe um vento de nostalgia. Ela, com muita propriedade, me perguntou: "O que aconteceu com as pessoas? Por que ninguém mais usa essas coisas e está tudo tão sem graça?".Concordei na hora. Hoje, a tal da "praticidade" virou desculpa para a preguiça social. Não falo da pressa do cotidiano, mas da covardia de não querer ter o trabalho de fazer um café para o outro, de não abrir a casa, de almoçar em qualquer balcão sem a menor intimidade com o chef. As pessoas desaprenderam os truques de um arroz solto ou de uma carne suculenta. O bom gosto foi extinto. A elegância morreu.Hoje, o mundo está cheio de gente "fazendo e acontecendo" em vídeos de um minuto no Instagram, dando dicas que ninguém pediu. O tempo livre e generoso acabou. Antigamente, o luxo era a visita sem hora marcada. Você ia ver um amigo e o anfitrião fazia você se sentir a pessoa mais importante do planeta. E a gente retribuía: levava um bolo ou amanteigados que ficavam divinos em uma bomboniere de vidro. Isso, sim, é chique.Hoje, se a criatura te recebe com um Tupperware, você já está no lucro. A maioria decaiu a ponto de guardar biscoitos em potes de sorvete. É uma tragédia em três atos: gastronômico, visual e horroroso. Gastronômico porque o plástico destrói o sabor do amanteigado; visual porque poucas coisas são tão deprimentes quanto um pote de plástico na mesa; e horroroso porque comer algo delicado dali de dentro é o fim da linha.Respondendo à sua pergunta, Karminha: não culpe o dia a dia. O que acabou com a beleza da mesa foi a pura e simples má educação, a falta de compromisso e a total ausência de empatia com o outro. O mundo ficou mais prático, é verdade. Mas ficou tragicamente infeliz
sábado, 13 de junho de 2026
O quintal da nossa infância
Hoje a saudade me pegou pelo braço. Não por conta de um nascimento na família, mas pelo avesso: pela celebração de todas as vidas que já dividiram o mesmo chão. Fui escrever uma mensagem de aniversário para um primo e, sem pedir licença, o passado invadiu a mente. Lembrei de nós. Daquela nossa infância barulhenta e urgente, encenada no quintal da minha avó.Havia uma jabuticabeira imensa e, nela, um balanço improvisado com uma poltrona arredondada que meu tio construiu. Cabiam três crianças empoleiradas ali, espremidas entre o risco e a adrenalina de um voo curto. Naquele tempo, antes de a ala dos "temporões" nascer, éramos apenas oito netos orbitando ao redor de Dona Doquinha. Ela era o nosso sol: uma mulher de corpo imponente, braços gordos e acolhedores — daqueles que só as avós de verdade possuem —, dona de uma voz que conseguia ser firme, baixa e absurdamente suave, tudo ao mesmo tempo.Sua casa era uma típica construção mineira, com um alpendre na frente e um quintal que, aos olhos da nossa miopia infantil, não era um lote: era a própria Floresta Amazônica esperando para ser desbravada. Quando os oito se juntavam, o mundo vinha abaixo. Éramos todos profundamente ciumentos — e, para ser bem sincero, acredito que ainda somos. O bicho pegava quando vinham as netas "de fora" — Juju, Lolô e Cacá. O ciúme é um sentimento curioso na infância; a gente vigia o afeto como quem guarda um tesouro. Se já éramos possessivos com quem estava por perto no dia a dia, a chegada das estrangeiras desestabilizava o império.Nessa época de véspera de férias, a casa mudava de tom. Cheirava a cera em pasta. O chão era esfregado com escovão, num exercício hercúleo que exigia braço e paciência. Mas a recompensa vinha à tarde: o perfume da rosca da rainha, os biscoitinhos da Guiomar e, claro, o bolo de tabuleiro da minha avó. Até hoje eu procuro a receita exata daquele bolo e ninguém sabe me dar. Talvez porque eu não esteja procurando os ingredientes. O que eu procuro, na verdade, é o sabor daquela saudade. Quero a minha avó de volta, meus tios na cozinha e a algazarra das primas desembarcando em Campos Gerais.Vencida a barreira do ciúme inicial, a horta virava o nosso palco de brincadeiras. E, antes que o sol se pusesse, Dona Doquinha nos convocava para o café. A prioridade, obviamente, era das recém-chegadas — o ciúme, esse velho conhecido, assistia a tudo de camarote. Nós, os nativos que desfrutávamos daquela senhora de cabelos acinzentados diariamente, ficávamos para a segunda leva. Minha avó não era do tipo que sentava para contar histórias; esse papel lúdico cabia à minha tia, que comandava as brincadeiras, inventava enredos e recortava bandeirinhas de festa junina. Minha avó era o porto de escuta. A gente chegava com as nossas pequenas tragédias infantis, reclamava do mundo, e ela apenas ouvia. Depois, soltava sua sábia filosofia: "Nada como um dia após o outro". Ela levava nossos dramas tão a sério que entendia que só o tempo e a noite poderiam resolvê-los.Criança também sabe ser cruel na sua lógica maquiavélico. Lembro de um dia em que uma das primas de fora, levada pelo entusiasmo cego da infância, arremessou uma torneira de ferro antiga para o alto. A física, que não perdoa, fez o objeto desabar exatamente na cabeça da Marcela, a prima nativa. O caos estava instalado: sangue, chororô e uma coleção de pontos no couro cabeludo da coitada. Nós, os ciumentos donos da casa, não hesitamos em carimbar a culpa na visitante, ignorando a obviedade do acidente. Para uma criança, a palavra "acidente" simplesmente não existe no dicionário. O mundo se divide estritamente em dois lados: os culpados e os injustiçados.Hoje o Brasil estreia na Copa do Mundo. O futebol já não anda lá essas coisas, mas o espetáculo está garantido por quem vai sentar na mesa de um bar qualquer para bancar o técnico, o juiz, ditar a justiça e, claro, apontar os injustiçados de sempre. Hoje também é o aniversário daquele primo querido, um dos temporões que não chegou a tempo de desbravar a nossa "Amazônia" particular no quintal de Campos Gerais, mas que carrega o mesmo sangue e a mesma história.E, como o destino gosta de costurar coincidências, hoje é dia de Santo Antônio. Meu querido Tonho. Vejo essa obsessão contemporânea de mulheres que sequestram o Menino Jesus do colo do pobre santo para forçar um casamento e fico pensando na loucura disso. Deixem-me clarear uma coisa: o único santo que de fato casou foi São José. Portanto, se querem apelar para quem entende do assunto, roubem o menino do homem certo! Santo Antônio deve passar um aperto danado pensando na prestação de contas que terá que fazer à Mãe de Deus. E mãe, sejamos honestos, é bicho maluco. Uma mãe desesperada pelo sumiço do filho se colocaria na frente de qualquer sequestrador e exigiria ir no lugar dele. Nossa Senhora não faria diferente. Mãe é sempre mãe, seja no altar ou no quintal da nossa infância.Portanto, façam uma prece sensata para São José, deixem que ele resolva a sua solteirice e, por favor, deem um descanso para o Tonho. A vida já é complexa demais para encrencarmos com os santos.
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