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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Vem curar sua nega que chegou de porre lá da boêmia..

O dia começa com samba, em plena manhã, e a trilha sonora — veja você — é Preta Gil. No ponto de ônibus, a vida passa apressada demais, com aquela gente que corre sem saber exatamente para onde. O circular demora, claro. O painel avisa, com uma insistência quase irritante, que o atraso é de cinco minutos. E Preta, aos berros no meu ouvido, insiste na Disritmia de Martinho da Vila. Uma delícia.Fiquei olhando para aquelas pessoas e me perguntei quantas ali não estariam de porre. Mas não de álcool, que isso até tem seu charme; de porre da vida, da sexta-feira, dessa rotina massacrante que insiste em nos engolir. No fundo, todo mundo ali queria apenas uma cama, um bom lençol, ser cuidado ou amar — intensamente, como dois animais. De repente, a playlist pula para Alceu Valença e me obriga a uma pausa dramática para imaginar a cena. Um luxo. Mas logo voltamos para a Preta.A Avenida do Contorno desenha o contorno exato de uma cidade cansada. O trânsito está aquele caos previsível de sexta-feira. Quando finalmente descemos do ônibus, as pessoas correm como se tivessem a missão Apolônico de levar razão ou Luz para alguns falsonaros, lulanaticos ou cedermaiscedo. Uma pressa inútil.Mas o melhor estava por vir. Quando viro a esquina do meu destino, cruzo com um verdadeiro samba-canção em meio ao tumulto: uma loira esplêndida, às sete da manhã, com o skincare impecável, cabelo escovado, levemente maquiada e perfumada. Alta, magra, de jeans, camiseta básica e tênis. Uma afronta. Por um segundo, pensei que o mundo pertencesse apenas às Fernandas Limas da vida.Que bobagem a minha. Fiquei imaginando essa moça ao lado das mulheres da etnia Kayan, aquelas com argolas no pescoço. A verdade é que a beleza é um conceito inteiramente relativo. Não existe essa história de gente feia, bonita, gorda ou magra. Existem pessoas, cada uma com o seu encanto. Agora, cá entre nós: já pensou uma mulher Kayan chegando de porre da boêmia, equilibrando todas aquelas argolas? Pouco provável, mas divertido de imaginar. O mundo sempre precisa de mulheres libertárias.E, quer saber? Hoje eu vou para o samba. Meu corpo exige dançar