sexta-feira, 19 de junho de 2026
A elegância na casa da minha avó era um acontecimento. Logo na entrada da sala, revelava-se aquela atmosfera típica das boas — e tradicionais — casas mineiras: uma mesa imensa com doze cadeiras, um bufê impecável que guardava as louças mais finas, talheres de verdade e toalhas com bicos de crochê impecáveis. Aliás, detalhe fundamental: a linha precisava ser a Mercer Crochet, comprada religiosamente no armarinho "Dolinha". Havia um código de sofisticação que começava na escolha do fio.Ao lado do bufê, a cristaleira exibia compoteiras, taças coloridas para cada tipo de bebida e duas bandejas de fainça floral que eram um deslumbre. O jogo de café já ficava montado na bandeja, esperando a vida acontecer. Havia prata, havia saladeiras requintadas, havia pompa. Era um tempo em que as horas pareciam correr mais devagar, ou talvez fôssemos nós que sabíamos gastá-las com mais elegância.A mesa posta seguia uma etiqueta tão rígida, com tanta parafernalha de talheres e pratos, que frequentemente havia mais utensílios do que convidados. Mas era assim que se demonstrava carinho: recebendo bem. (Um parêntese: algumas avós preferem colecionar livros, amigos e títulos do Atlético — não é, Mariângela? Essa minha amiga, sim, sabe o que é ter história).Pois bem. Ontem, flanando pela Modernos Eternos — aquela mostra divina de arquitetura e arte em BH —, cruzei com a Dona Karminha, uma mulher encantadora, dona de um antiquário fabuloso. O encontro me trouxe um vento de nostalgia. Ela, com muita propriedade, me perguntou: "O que aconteceu com as pessoas? Por que ninguém mais usa essas coisas e está tudo tão sem graça?".Concordei na hora. Hoje, a tal da "praticidade" virou desculpa para a preguiça social. Não falo da pressa do cotidiano, mas da covardia de não querer ter o trabalho de fazer um café para o outro, de não abrir a casa, de almoçar em qualquer balcão sem a menor intimidade com o chef. As pessoas desaprenderam os truques de um arroz solto ou de uma carne suculenta. O bom gosto foi extinto. A elegância morreu.Hoje, o mundo está cheio de gente "fazendo e acontecendo" em vídeos de um minuto no Instagram, dando dicas que ninguém pediu. O tempo livre e generoso acabou. Antigamente, o luxo era a visita sem hora marcada. Você ia ver um amigo e o anfitrião fazia você se sentir a pessoa mais importante do planeta. E a gente retribuía: levava um bolo ou amanteigados que ficavam divinos em uma bomboniere de vidro. Isso, sim, é chique.Hoje, se a criatura te recebe com um Tupperware, você já está no lucro. A maioria decaiu a ponto de guardar biscoitos em potes de sorvete. É uma tragédia em três atos: gastronômico, visual e horroroso. Gastronômico porque o plástico destrói o sabor do amanteigado; visual porque poucas coisas são tão deprimentes quanto um pote de plástico na mesa; e horroroso porque comer algo delicado dali de dentro é o fim da linha.Respondendo à sua pergunta, Karminha: não culpe o dia a dia. O que acabou com a beleza da mesa foi a pura e simples má educação, a falta de compromisso e a total ausência de empatia com o outro. O mundo ficou mais prático, é verdade. Mas ficou tragicamente infeliz
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