segunda-feira, 3 de agosto de 2026
De Abrigos, Barquinhos e Outros Acontecimentos
A gente passa a vida inteira tentando decifrar grandes palavras. Fidelidade, gratidão, amor. Como se existisse um manual de instruções na cabeceira, pronto para nos dar as respostas. Procuramos o carinho no meio dessa pressa toda, nesse mundo distraído que mal olha nos olhos, que mal tem tempo de notar o outro. E a resposta, quando vem, é de uma simplicidade quase rara: o amor não é um conceito teórico. É trajeto. A gente só encontra o carinho de verdade na trajetória bonita do afeto, bem ali, onde a reciprocidade resolve morar.Mas sejamos sinceros: pensar na trajetória do afeto dá um trabalho danado. É muito mais difícil do que simplesmente sair por aí falando de amor. Trajetórias exigem que a gente olhe para trás. Elas contam histórias, cobram o preço da saudade, cutucam as feridas dos abandonos. Vêm sempre acompanhadas de uma pontinha inevitável de melancolia. Afinal, é no afeto que a gente guarda o que tem de mais precioso e vulnerável: o bendito "querer bem".Acho comovente quem se dedica de corpo e alma ao que ama. Gente que transforma talento em pura doação, só para que o outro possa brilhar. Tem gente que nasce com vocação para ser abrigo — é carinho, amizade e lealdade embrulhados para presente, sem fita métrica. Uma costura bonita do outro com o outro e para o outro, uma mistura fina de Simone de Beauvoir com espírito coletivo. Para alguns, essa trajetória parece um barquinho calmo, navegando em um mar perfeitamente azul.Só que a vida real, a gente sabe, gosta mesmo é de caminhos sinuosos.Tenho uma conhecida, por exemplo, cuja linha de afeto vai direto esbarrar no que ela mais acredita: o amor. Difícil, né? Mas é exatamente isso. Ela se dedica aos sonhos alheios. O amor que poderia ser dela, ela realiza nos outros. O afeto dela é abrir espaço para o outro existir, é acolher, é transformar o dia comum de alguém em uma recordação divina.Afeto, no fim das contas, é isso: amar o que se faz e para quem se faz. É saber que, quando ninguém estiver acreditando, haverá alguém lá para te acolher. Só que, para realizar o sonho do outro, ela abre mão de uma parte dos seus próprios desejos. Errado? De jeito nenhum. Este é o sonho dela. Ela caminha em uma corda bamba, tentando administrar o mundo dos outros e o seu próprio.Fico comovida com o trabalho que ela realiza. E, acima de tudo, com a quantidade de afeto que ela consegue espalhar para quem está em volta. Falta mais disso no mundo
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