sábado, 30 de maio de 2026
ah o amor! seja como for é o amor! (drummond)
drummond foi um sabio ao falar de amor, acredito que deve ter sido melhor amante que poeta, por escrever tao bem sobre ele,com tamanha precisão. É preciso ter sido um amante formidável antes de se arriscar nos versos.Reparem bem: "amor" deve ser a palavra mais pronunciada no mundo, logo atrás de "Deus". E não venham os ateus me dizer o contrário; na primeira turbulência no avião ou no primeiro sobressalto da vida, o grito que escapa da boca é sempre um "Pelo amor de Deus!". No fundo, é o próprio Criador nos lembrando da urgência desse sentimento que Ele, sem precisar de absolutamente nada em troca, insiste em nutrir por nós. É um luxo divino.Dias atrás, caminhando pelas ruas de Belo Horizonte, deparei-me com as colunas lindamente pintadas pelo artista Rogério Fernandes. Em uma delas, saltava aos olhos a inscrição bíblica: "O amor cobre uma multidão de pecados".(⁰registrada no Novo Testamento, em 1 Pedro 4:8, e também tem um paralelo no Antigo Testamento, em Provérbios 10) Uma frase linda, de um misticismo profundo, que tenta nos convencer de que, enquanto o julgamento alheio afasta e condena, o amor tem o poder elegante de aproximar e restaurar o que foi quebrado.Mas vamos com calma. Será mesmo?Se estivermos falando daquela pureza ingênua e febril dos adolescentes, até dou o braço a torcer. Mas o amor adulto, meus caros, aquele que vem com CPF, compromisso e conta conjunta... esse não perdoa. Se houver um deslize grave, um "pecado" que fira a dignidade, não há elegância ou prece que salve. Nem nesta vida, nem na próxima encarnação. O amor-próprio precisa entrar em cena, e ponto final.A verdade é que nós, humanos, somos seres exagerados. Amamos demais e tudo o que vemos pela frente. Amamos o futebol de domingo, a cerveja trincando no copo, o sol na pele, a praia, as pessoas (algumas), os bichos e as plantas. E amamos as coisas, claro. Gastamos nosso estoque de afeto com sapatos, roupas, bolsas e toda sorte de futilidades que este planeta oferece. Chegamos ao cúmulo da cafonice de amar sacolinhas plásticas em pleno século XXI. Consumismo puro disfarçado de paixão.E já que o assunto descambou para o futebol, a Copa do Mundo bate à porta. Com ela, desperta aquele nosso amor incondicional pelo verde e amarelo. Uma pena, confesso, que a nossa belíssima camisa canarinho tenha sido sequestrada pela militância política nos últimos tempos, deixando de lado o verdadeiro patriotismo, aquele que costumava nos abraçar de quatro em quatro anos.Quem não se lembra do Brasil de 1994? Aquilo, sim, era um time movido a puro amor e brio. Branco, Raí, Cafu, Jorginho, Dunga, Leonardo, Mauro Silva, Taffarel... Homens de verdade em campo, que brigavam até a última gota de suor pelo orgulho nacional. Não havia vaidade que ficasse acima da bandeira.Hoje? Bem, hoje o orgulho nacional atende pelo codinome de "Tigrinho". E quem nos vende essa ilusão no Instagram é ninguém menos que Neymar — um jogador que se diz tão verde e amarelo quanto os heróis de 94, mas que parece preferir os cifrões dos cassinos virtuais ao futebol arte.Para completar o cenário dessa nossa comédia de costumes, surge a sua "tigresa": Virgínia Fonseca. A moça, que já havia causado um burburinho danado nas CPI das Betsfpo parar no palanque da Sapucaí ao desfilar como rainha de bateria da Grande Rio e que agora é a mais nova estrela do jornalismo esportivo da TV Globo para o Mundial. Uma escolha, no mínimo, exótica.Mas, no fim das contas, tudo se faz por amor. Amor ao dinheiro, ao clique, à fama. E o brasileiro, que adora um melodrama, vai sentar na sala, ligar a televisão e fingir que está tudo ótimo. Afinal, como diz a coluna pintada por Rogério Fernandes, amar é exatamente isto: cobrir uma multidão de pecados. Nem que seja para a Globo nos mostrar o recibo depois.
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