
— e convenhamos, deveria ser — eu seria bem mais alto. Teria cabelos soltos, desses que o vento bagunça com precisão, e seria, no mínimo, deslumbrante. Desceria aquela escadaria de E o Vento Levou, sem pressa, só pelo efeito dramático. A mocinha? Teria o rosto da Dietrich, um olhar de quem já viu de tudo e não se impressiona com quase nada. Estaria de Yves Saint Laurent, claro, com uma piteira entre os dedos e aquele gesto arqueado, aristocrático. Nos olhos, toda a poesia de Chico Buarque. Se a vida fosse cinema, eu seria famoso. O amor não seria um esbarrão sem graça no metrô às seis da tarde. O amor seria pedido à la carte. Imagina a cena? Você senta, abre o menu e diz ao garçom: 'Traga-me um tipo de 1,80m, inteligente, poliglota e que saiba, por favor, quem criou La Bohème'. E, para acompanhar essa caça, o vinho mais caro e sangrento da adega. Quase um banquete, com maçã na boca e bandeja de prata. Viveríamos entre a precisão de Elizabeth Bishop e o sol do Aterro do Flamengo. Teríamos a força de Rodin e o drama de Camille Claudel. Aboliríamos os domingos — que são ociosos e deprimem — e o número 19, que é foneticamente pavoroso. Eu seria Bento Gonçalves tomando um café no outono, ou estaria em Pamplona vendo uma tourada, ou quem sabe me perdendo nos azulejos de São Luís. Seria Jô Soares com o cérebro da Marília Gabriela. Se a vida fosse filme, eu não perderia um segundo. Mas, como o roteiro original é meio caprichoso e a pessoa ideal não existe, o jeito é a gente se copiar. É a única forma de viver com algum estilo
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