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domingo, 27 de outubro de 2019

Domingo, mon amour (ou quase isso)

Ah, o domingo... esse dia de uma preguiça vasta e um tédio que, se não for bem administrado, vira tragédia. Se você tem menos de vinte anos, acorde e agradeça à sua santa resiliência pela ressaca, pela balada de ontem e por ter voltado para casa sem a menor ideia de como chegou. É um privilégio da juventude ser um completo desastre e sair ileso. Agora, se você já dobrou o cabo dos quarenta — e espero que tenha chegado aqui com alguma elegância —, o ritual é outro. Acorde, agradeça por estar viva e faça um alongamento breve; é preciso colocar os ossos no lugar antes que eles decidam se aposentar por conta própria. Tome seu café, mas tome com calma, e saia para contemplar. Pegue a bicicleta, sinta o vento no rosto e vá visitar aquela amiga que sabe rir. Ria dela, ria de você, ria com ela. É o melhor Botox que existe. Mas atenção: visite a família com cronômetro na mão. Família é uma delícia quando deixa aquele gosto de "quero mais"; quando a visita se estende, vira inventário de mágoas. Aliás, aprenda de uma vez: visita, seja de horas ou de dias, segue a regra do peixe. Passou do tempo, começa a cheirar mal. Mantenha o mistério, apareça pouco para que sintam sua falta. Procure um Flamboyant, sente-se à sombra e hidrate-se. Aos vinte, a gente sobrevive no seco; aos quarenta, se não beber água, a pele murcha como um linho mal passado. Ouça Milton Nascimento. Deixe que a voz dele te atravesse, e se uma lágrima vier, não lute contra. Chorar limpa o globo ocular e expulsa os demônios que a gente insiste em guardar na bolsa. É uma higiene necessária. Depois dessa faxina na alma, volte para casa. Grite se tiver vontade, dance sozinha na sala, vadie sem culpa. A vadiagem é uma arte subestimada. E, por favor, um apelo à sua dignidade: se a solidão de domingo bater à porta, lembre-se que você é sua companhia mais interessante. Nada de pegar o celular para mandar mensagem para quem não te merece ou não te dá a menor confiança. Ter classe é, acima de tudo, saber a hora de retirar o time de campo. Na dúvida, uma gota de Rivotril, um sono profundo e só acorde com a trilha do Fantástico. A segunda-feira chega para todo mundo, mas que ela te encontre, ao menos, devidamente descansada e com o orgulho intacto.

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