
Outro dia escrevi sobre a inveja. Muita gente tenta suavizar com essa bobagem de "inveja branca", como se o adjetivo limpasse a cobiça. Não limpa. Inveja é inveja e estamos combinados. É um sentimento humano, desses que a gente carrega na bolsa junto com o cigarro, queira ou não.
Eu mesmo, sendo tão humano e pecador quanto qualquer mortal, tive meu momento. Olhei um casal em plena Copacabana e a pergunta veio fulminante: "Quando é que terei a mesma oportunidade?". Entrei no mar, pedi a Iemanjá, mas logo percebi que o paraíso já tem dono — e não sou eu.
O que me causa desconforto, na verdade, é a beleza alheia. Aquela frase da música da Fafá, que beira o cafona mas é um luxo, me faz querer ter sido ela por cinco minutos só para cantar aquilo. Ou ter a voz da Maysa em "Bom Dia Tristeza", ou o drama de Dalva de Oliveira. Escuto a Bethânia cantando "Gente Humilde" e choro, porque não fui eu quem escreveu aquela perfeição.
Tenho inveja de pintores, de poetas, de gente que consegue traduzir o mundo melhor do que eu. Dá uma vontade de fugir de si, de ir embora sem destino, só para não ter que encarar o fato de que não fiz nada daquilo.
Aí a gente lembra da Adriane Galisteu dizendo que no fundo do poço tem uma mola. É cafona? Talvez. Mas a gente se joga e tenta o impulso. Nem sempre funciona, mas tentar é o mínimo. Fellini, que entendia de beleza como ninguém, dizia: "Para nunca deixarmos que a beleza fuja dos nossos olhos, senão perderíamos o prazer de enxergar".
Então, aceite meu conselho: tenha seu minuto de inveja. Só um minuto. Cobiçar a pessoa alheia é um erro tático e um pecado divino. Mas invejar o talento e a beleza? Isso é ao contrário um erro divino e um pecado tático.O que nos resta para continuarmos prestando atenção no mundo
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