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sábado, 9 de outubro de 2010

Dona Baratinha...




Vamos combinar uma coisa: barata de esgoto é o fim da linha. Mas a nossa personagem não era dessas. Era uma moça fina, educada em colégio de freiras, com uma bagagem intelectual impecável e aquela veia ativista que hoje em dia todo mundo acha chique. Dividia seu tempo entre causas humanitárias na ONU e temporadas em locais de crise — adorava o frisson da Faixa de Gaza. Mas, no fundo, era uma dona de casa caprichosa. Mantinha seu apartamento impecável, com flores frescas nas janelas, bem ao estilo de uma boa anfitriã.Um dia, fazendo uma arrumação no sótão, encontrou um formulário para o Bolsa Escola. Como era solteira e sem filhos, não tinha direito ao benefício, mas a ideia de uma renda extra a seduziu. Pensou que com aquele dinheiro poderia fazer uma boa reforma na casa e, quem sabe, renovar o guarda-roupa com algumas peças mais interessantes. Conclusão: precisava urgentemente de um marido.Separou um enxofre lindo que ela mesma havia bordado nos tempos de colégio, caprichou no visual, fez um coque elegante e foi para a janela ver o que o mercado de solteiros tinha a oferecer.O primeiro a passar foi o Cigarra. Um rapaz jovem, considerado o mais elegante da cidade. Ela, muito direta, perguntou se ele topava o casamento. Ele aceitou na hora. Mas a nossa heroína sofria de insônia crônica e quis saber como era a rotina noturna do pretendente. Quando o rapaz soltou um agudo estridente, com aquela viola debaixo do braço, ela perdeu o encantamento imediatamente. Achou cafona, performático demais e o dispensou sem a menor cerimônia.Depois dele, veio uma fila de desastres. Um sapo com hábitos íntimos absolutamente invasivos e sem a menor delicadeza; um jacaré bruto que só sabia resolver as coisas na base da força; e até um porco que não tinha a menor noção de higiene. Um horror. Nenhum deles tinha a menor fineza para conviver sob o mesmo teto.Ela já estava quase desistindo e se conformando com a solteirice quando surgiu Dom Ratão. Um charme. Elegante, discreto e com uma voz suave que não incomodaria o sono de ninguém. Ficaram noivos no ato.Os preparativos para o casamento começaram e ela se jogou na organização do banquete. Mas Dom Ratão, como quase todo homem com pose de bom moço, tinha um lado B. Exigiu uma despedida de solteiro. Ela, moderna, consentiu. O problema é que o sujeito não foi tomar um drinque num piano-bar; foi parar em uma boate de quinta categoria, daquelas bem barulhentas da periferia.No dia do casamento, a igreja estava cheia, os convidados elegantes esperando, e nada do noivo. Cansada de esperar no altar, ela reuniu alguns amigos mais íntimos e resolveu ir atrás do sujeito. O cenário que encontrou foi um choque para a sua criação católica: Dom Ratão havia se envolvido em um acidente anatômico devastador com um jegue de proporções descomunais. E o pior de tudo: o noivo gostou do escândalo. Ali mesmo, abandonou a dignidade, subiu no lombo do animal e fugiu para Miami, que é para onde todas as pessoas de gosto duvidoso vão quando querem desaparecer.Ela chorou, claro. Ninguém gosta de ser trocada por um quadrúpede em Miami. Mas a decepção muda as pessoas. A nossa ativista recatada mandou os bons costumes às favas. Hoje, ela frequenta a noite, aceita os galanteios ousados do sapo e ganha a vida na noite carioca. Quanto ao Bolsa Escola? Ela trocou o cupom por um belo par de malas Louis Vuitton. Afinal, se é para ser solteira, que seja com estilo

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Modos de homens...


Vamos falar a verdade: esse mundo moderno, cheio de tecnologia e engenhocas, acabou com os modos. Muita coisa que era linda virou fumaça e o comportamento social hoje em dia está uma coisa de quinta categoria. As pessoas estão alienadas. E os homens, coitados, andam perdendo a compostura num ritmo alarmante. Glorinha Kalil tem aquela frase perfeita: “Ninguém é chic se não for civilizado”. Pois eu assino embaixo. A verdade nua e crua é que não se fazem mais homens como antigamente. E que falta eles fazem.Onde foram parar os cavalheiros? Aqueles que tinham a delicadeza de esperar a gente no portão, que pediam licença ao entrar na nossa casa e que desciam a escada na frente das mulheres— não por pressa, mas para o caso de tropeçar. Hoje em dia você sai com um sujeito e ele passa a noite olhando para a tela do celular. Um horror. Estar com alguém significa estar ali, presente, inteiramente focado na pessoa. O resto é má educação.O homem elegante fala baixo. Se acende um cigarro ou puxa a cadeira para você sentar, faz isso com uma naturalidade divina, sem parecer um ator de teatro mofado. E na hora da raiva? Ele não grita. Não faz barraco, não dá espetáculo para os vizinhos ou para a mesa ao lado. Nós já saímos da Idade da Pedra faz tempo, o tacape já foi aposentado. Somos seres civilizados, ou pelo menos deveríamos ser.O homem precisa ser o esteio. Mulher gosta — e precisa — de um ombro para chorar, de um apoio nos momentos em que o mundo desaba, esteja ela certa ou errada. Até porque o certo e o errado são apenas pontos de vista, não é verdade? Falta aos homens de hoje um pouco mais de complacência, de jogo de cintura, de generosidade. Falta charme. Falta ser chic.Em vez disso, resolveram virar “fashionistas”. Um horror completo. Usam tantos acessórios, tantas pulseiras, tantos penduricalhos que a gente olha e simplesmente não consegue decifrar o que é aquilo. Um homem não precisa de fantasias.O guarda-roupa masculino deveria ser quase único, focado no essencial e no bom corte. Anote aí o que basta para um homem ser impecável:Camisa branca e camiseta branca (limpíssimas, por favor);Uma polo colorida e uma boa jaqueta;Uma camisa xadrez de lã, que fica um charme usada aberta por cima da camiseta branca;Dois ternos: um chumbo para a noite e um areia — que eu acho infinitamente mais elegante que o bege tradicional;Uma calça social caqui e duas calças jeans: uma reta, clássica, azul-marinho, e outra mais moderna, dessas lavadas e confortáveis;Um moletom neutro para os dias de preguiça, shorts e bermuda;Uma sunga (para quem está em forma, claro), cintos de lona e de couro, uma gravata;Nos pés: um belo sapato social de corte italiano, um tênis bacana e uma sandália franciscana;Para o sol, bonés e chapéus.No inverno, o cachecol é obrigatório. Mas fique nos lisos ou nas lãs mescladas. Agora, por favor, aqueles lenços compridos e performáticos, estilo Talibã, nem pensar. É um paroxismo do ridículo. Se for para usar aquilo, prefira logo uma burca. Não vai ficar bonito, mas garanto que todo mundo na rua vai parar para olhar.Homem de verdade não precisa de excessos. Precisa apenas de um bom par de sapatos e de uma dose maciça de educação. O resto é bobagem.

terça-feira, 5 de outubro de 2010


Um burro carregado de livros é um sábio! Será?

Um burro é apenas um burro, tem a sua inteligência adequada e adestrada aquilo que é proposto ao tal animal. Fico indignado quando chamam alguém de burro, até porque, para ser um burro precisa de muita paciência e sabedoria. Só porque o animalzinho empaca, não quer dizer que ele seja inábil em fazer alguma atividade.
Carregando livros, ele continua sendo um quadrúpede e fazendo a sua função, carregador! O que faz com tamanha primazia.
Depois de muito pensar, como seria um ser humano sábio, ele por sua vez não será menos que o burro que carrega livros.
Sabem por quê? Simples, quanto maior a sabedoria humana, mais será sua ignorância, e nem falo do conhecimento pragmático, mas sim do conhecimento cognitivo, conhecimento de vida, o social.
Pessoas que passam suas vidas entregues aos estudos são um sábio, mas transmitir tal sapiência, nem sempre vai ser fácil. A não ser que o grupo seja restrito e conhecedor de tal assunto.
Nestas horas vale sempre lembrar que Paulo Freire, já dizia: “Que todos têm sua cultura, e trazem essa bagagem para a sua vida e para sua necessidade de aprendizado”. Melhorar sempre é bom, mas para quem? Por quem? Ser o melhor do mundo é ótimo, mas ser o melhor e depois ficar com a cara de nada sabe? Que adianta? Bom seria se todos pudessem acompanhar tal desenvolvimento.
Mas voltando a historia do burro gosto de um amigo que me disse a seguinte frase: “pra mim burro é burro e o fato de estar carregando peso, ou seja, livros só demonstram ainda mais sua burrice... sábio seria se ele carregasse pasto para alimentar-se e continuar sua estada nesta terra tão burra quanto ele.”

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Parnasianismo.


Gosto de listas. Elas organizam o caos que insistimos em chamar de rotina, embora a vida insista em transbordar pelas bordas. Se eu pudesse resumir meus dias em um manual de sobrevivência para a alma, ele seria feito de pequenos alívios e grandes ironias.Para os dias em que o peito aperta e a mente questiona o próprio sentido de estar aqui, dispenso os tarólogos: chamo Simone de Beauvoir para resolver a crise existencialista e deixo Clarice Lispector sussurrar como uma pessoa deve se comportar — sabendo que, no fundo, Clarice nos ensina justamente a desabar com elegância. Se a angústia persistir, Maria Bethânia canta a saudade e Maysa assume a trilha sonora da fossa. Porque sofrer faz parte, mas sofrer sem uma boa música de fundo é um desperdício de drama. Para o estresse do trânsito e dos boletos, a delicadeza de Ernesto Nazareth ao piano surte mais efeito que qualquer ansiolítico.A sobrevivência urbana também exige seus truques práticos. Contra gente chata, o frasco de Baygon deveria ser item obrigatório na bolsa. Para a ressaca moral ou literal, os maiores óculos de sol que você encontrar e um banho de água fria na cara inchada. Se o dia está corrido demais para o afeto de um bule inteiro, um cafezinho rápido e um cigarro na calçada resolvem o intervalo. Aliás, na pressa, a gente se perde. E tudo bem. Quem está muito perdido procura uma bússola; quem quer mesmo se encontrar, joga a bússola fora e se permite o luxo do descaminho.No fim das contas, o que nos salva são os outros. São as conexões que criamos para não enlouquecer. Para ser bem hospedada, bato na porta do Ricardo e do João. Para rir até a barriga doer, chamo Poliana e Vanessa. O Claudio é meu porto seguro: serve para tocar violão nas segundas e quartas, para o café sagrado depois da academia e, junto com a Elida e o Rodrigo — que por sinal faz o melhor yakisoba com vinho de cereal do mundo —, formam o comitê dos amigos de todas as horas. Para uma conversa densa sobre o Marquês de Sade, chamo o Alcântara. Para o almoço interminável de domingo, convido Sartre, sabendo que a comida vai esfriar enquanto discutimos a liberdade.A vida é esse mosaico de miudezas. É usar marca-texto para não ser apenas mais um na multidão, é saber que para o amor basta um beijo, para o sexo basta a camisinha e para um sábado perfeito bastam duas rodas e uma bicicleta sob o sol. O resto é protocolo para guardar no museu. No cotidiano que vivemos, o que importa mesmo é a coragem de abrir a janela e ter quem esperar do outro lado

segunda-feira, 30 de agosto de 2010


Primeira história
O sapo Liu-Liu tinha muita pena de seu cu. Olhando só pro chão! Coitado! Coitado do cu do sapo Liu-Liu! Então ele pensou assim: Vou fazer de tudo pra que um rainho de Sol entre nele, coitadinho! Mas não sabia como fazer isso. Conversando um dia com a minhoca Léa, contou tudo pra ela. Mas Léa também não sabia nada de cu. Vivia procurando o seu e não achava.
- Tá bem, vá, então cê não tem esse problema, disse Liu-Liu.
- Mas não fica bravo, Liu-Liu, eu vou me informar. Vou saber
como você pode fazer pra que um rainho de sol entre no teu fiu-fiu.
- Que beleza, Léa! Fiu-fiu é um nome muito bonito e original!
- Não seja bobo, Liu, todo mundo sabe que cu se chama fiufiu.
- Ah, é? Pois eu não sabia.
Então Léa viajou pra encontrar a coruja Fofina que tinha fama de sabida. Fofina pensou pensou pensou, abriu velhos livros, consultou manuscritos, enquanto Léa dormia toda enrolada.
- Acorda, Léa! Achei! disse Fofina.
A minhoca Léa ficou toda retesada de susto.
- Relaxa, relaxa! disse Fofina.
- Olha, Léa, Liu-Liu tem que aprender uma lição lá na Índia – disse Fofina.
- Eu tenho medo de índio, disse a minhoca Léa.
- Não seja idiota, Índia é uma terra que fica longe daqui.
- Ah, então tá bom, disse Léa.
- Olha, Léa, lá na Índia eles se torcem tanto que engolem o próprio cu.
- Credo! E como é que o cu sai?
Bem, isso é outra história que eu tenho que estudar, mas o Liu- Liu tem que ficar com a cabeça pra baixo, e as pernas de trás pra cima. Assim
Fofina ficou vermelha como um peru e não consegiu mostrar o exercício pra minhoca Léa, mas Léa entendeu, e foi ventando contar tudo a Liu-Liu. demorou três dias, mas chegou. Foram meses muito difíceis para o sapo Liu-Liu, Mas toda a sapaiada ficou torcendo pra ele. E quando o primeiro rainho de sol entrou no fiu-fiu de Liu-Liu foi aquela choradeira de alegria. E o país do Cu-quente, onde mora o Liu, desde então é uma festa! Do dia ao poente!

domingo, 15 de agosto de 2010

surtos....


Sempre achei de quinta categoria aquela cena de filme em que o sujeito fica sozinho na cozinha, de madrugada, sentado no chão fumando um cigarro. Deprimente? Ao extremo. Pois bem, mordo a língua: meu fim de semana foi exatamente esse roteiro de filme B. Se estivesse inspirado, diria que parecia algo dirigido por Mike Newell, com aquela luz melancólica de O Sorriso de Mona Lisa. Mas a verdade nua e crua é que estava mais para um capítulo histriônico de Maria do Bairro. Drama puro. De cortar os pulsos.Em meio ao caos, descobri utilidades inéditas na arquitetura doméstica. A banheira, por exemplo, vira uma excelente cama quando o trajeto até o quarto parece longo demais. Fiquei ali, num revezamento prático — e absolutamente nada elegante — entre o vaso sanitário e as bordas da banheira. A maioria das pessoas detesta vomitar, mas ali, no chão do banheiro, entendi que o corpo é sábio. Eu não estava apenas devolvendo excessos; estava expurgando o mundo. Cada espasmo levava embora a raiva acumulada em meus 1,75m de altura e aliviava uma cabeça que pesava uma tonelada, como se um elefante de carga tivesse pisado nela.A quem culpar? Ninguém. A culpa é sempre da nossa própria soberba em nos deixarmos levar por momentos raivosos. Passar mal, no fundo, é o corpo cobrando a conta da nossa indignação com os outros.Depois de horas nesse purgatório, a salvação veio em forma de Plasil na veia e um bom calmante. Não é a saída mais ortodoxa, confesso, mas o efeito é quase psicodélico: o mundo fica rosa, depois amarelo, ganha bolas coloridas e, finalmente, o apagão misericordioso. O problema é acordar no dia seguinte. E o pior: ter uma entrevista agendada numa rádio local para falar justamente sobre o que eu supostamente domino — cultura e comportamento humano. Como alguém consegue falar de elegância comportamental quando está em frangalhos? Não consegue. Mas o profissionalismo exige. O remédio foi uma caminhada matinal e litros de água para tentar trazer a alma de volta ao corpo.Para coroar o domingo, uma festa. E festas são perigosas porque sempre incluem "aquela" pessoa. Alguém que você não suportaria ver nem a quilômetros de distância, mas que decide surgir ao seu lado, gritando e querendo aparecer a qualquer custo. Falta de berço é um problema seríssimo. Diante da cafonice alheia, a única reação fina é a retirada estratégica. Voltei para casa, para o meu confidente de louça branca e para a banheira-cama. Minhas turbulências nunca são brisas, são tsunamis que devastam até os pensamentos.O resgate veio no fim do dia, cortesia de amigos finos que não suportavam me ver trancado cultivando o rancor. Fui raptado — com o meu consentimento, claro — para ajudar na arrumação do sítio deles. Se funcionou? Não sei. Só sei que trocar a raiva do mundo por uma semana espanando poeira e carregando caixas parece uma terapia bem mais barata. E assim, entre um expurgo e uma faxina, a vida continua

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Reminiscência de vida.


Ele entrou no quarto sem pressa, com aquela lentidão típica de quem não tem mais compromissos com o relógio. Olhou ao redor. A única coisa ali era a velha cadeira feita pelo avô — um móvel de respeito, daqueles que não se fabricam mais. Mas o que realmente chamou sua atenção foi o baú empoeirado em cima da penteadeira. Estava esquecido há anos.O objeto havia virado um depósito de bugigangas desordenadas. Mas, antes de acumular tralhas, aquele baú tinha sido o receptáculo de muito estoicismo. Um "aguentar" silencioso que ele, por pura vaidade ou medo do que encontraria, vinha se recusando terminantemente a abrir. Sofrendo de uma crônica falta de vontade — e talvez de amor por si mesmo —, sentiu um incômodo profundo e ficou ali, paralisado, digerindo o passado por horas.Tomado por uma coragem súbita, finalmente pegou a caixa. Era uma peça bonita: 25 centímetros de altura por 50 de largura, feita de sucupira maciça com suas iniciais entalhadas. Um presente de nove anos de idade, época em que os homens da família achavam que se devia guardar memórias para o futuro. Bobagem. Com o passar dos anos e a correria boba da vida, ele acabou jogando ali apenas o que realmente importava: lembranças de pessoas que viu uma única vez, livros lidos à exaustão, recortes de jornais de épocas marcantes e, claro, as conquistas amorosas.As fotografias de família estavam bem arrumadas, presas por uma fita de cetim marrom. Já as fotos do seu grande amor... essas ganharam um nó de barbante rústico, amarradas junto às cartas que ele nunca teve a audácia de enviar ao destinatário. Faltou coragem.Havia também o caderno de anotações. Capa dura, verde, com o desenho de um ipê amarelo que ele mesmo havia copiado ao vivo da fazenda do avô. Na capa, em nanquim elegante: “Meus Pensamentos”. A fazenda já tinha sido vendida há décadas, e todos os planos feitos à sombra daquela árvore foram embora com os novos donos.Vasculhando o passado, resgatou uma mantilha da bisavó e um missal em latim. Ao lado, uma fita cassete da Dalva de Oliveira, que ele havia confiscado da mãe porque gostava daquela voz sofrida, cantando amores bandidos e impossíveis. Encontrou o convite de casamento de uma amiga — uma festa à qual ele não compareceu por um motivo fútil que o tempo já apagou. O papel estava amarelado, mas as letras douradas ainda resistiam. Havia a vela da Primeira Comunhão com o desenho do cálice e o terço da infância.Abaixo do sagrado, veio o profano do cotidiano: recibos sem importância, contas de luz e telefone pagas, canetas sem tinta e um santinho do Sagrado Coração de Jesus.Os olhos dele começaram a lacrimejar. Lembrou-se de tudo com uma clareza desconfortável. Aquele baú era uma espécie de Caixa de Pandora sofisticada, libertando seus fantasmas, suas fraquezas e suas virtudes. Sobrando apenas a esperança, que é o que resta quando o resto acaba.Passei a mão pela madeira, sentindo o incômodo da poeira nos dedos. Abriu de vez e começou a esvaziar o móvel. Cada objeto retirado era um flashback nítido. O choro contido virou um desabafo legítimo, daqueles que a gente não consegue disfarçar. No final, sobre a mesa, sobraram apenas as fotos e as cartas amarradas com barbante — o registro do amor que não foi vivido.Quando deu por si, as lágrimas tinham sido substituídas por um sorriso aristocrático, sereno. A caixa estava vazia e ele, tomado por uma sensação de vitória. Afinal de contas, a única coisa que havia restado de toda aquela bagunça era a elegância da sua própria biografia.