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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Um Homem Para Chamar de Seu (Ou Não)

Caminhando por Belo Horizonte outro dia, dei de cara com uma pichação numa caixa de luz que dizia: "Se eu pudesse eu queria saber o que você pensa enquanto me esquece". Achei de uma cafonice comovente. Aquela típica humilhação pública de quem fica esperando o telefone tocar enquanto o outro já trocou de número, de endereço e de amante.Minha primeira reação, claro, foi pensar: "Minha filha, passe um batom, mude o corte de cabelo e entenda de uma vez por todas que esse sujeito não te merece". Mas depois me recolhi à minha insignificância e lembrei que a vida real não tem a elegância de um comercial de hotel cinco estrelas. A vida é um samba do Paulinho da Viola — daqueles que reviram as nossas tripas e tiram o nosso sossego.O erro crucial desse pobre pichador anônimo foi o erro de dez entre dez mulheres bem-nascidas: a insistência em esperar alguma nobreza de um coração leviano. Vamos ser francas? Um homem leviano não pertence a ninguém. Ele é incapaz de se sintonizar com o ritmo de qualquer outra pessoa. É um egoísta nato, e contra isso não há charme que dê jeito.Ninguém sã se joga em um mar tempestuoso por escolha. Mas a verdade é que, às vezes, uma boa sacudida dessas nos devolve o bom senso. Mostra que o tédio da calmaria é um horror. Água morna, afinal, só serve para banheira — e, se for para estar numa banheira, que seja muitíssimo bem-acompanhada, por favor.Foi aí que me veio à mente a maravilhosa Rita Lee, que entendia de pecado e de prazer como ninguém. Imaginei a resposta perfeita para aquela lamentação na parede: "Que tal nós dois numa banheira de espuma?".Pronto. É disso que o mundo precisa: menos melodrama e mais audácia. Se o samba do Paulinho nos ensina a diagnosticar o canalha, o rock da Rita nos ensina o que fazer com ele depois que a porta se fecha. No balanço final, a vida é exatamente isso: a dor de cabeça do dia seguinte e a delícia de um banho de espuma bem compartilhado

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