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sábado, 13 de junho de 2026

O quintal da nossa infância

Hoje a saudade me pegou pelo braço. Não por conta de um nascimento na família, mas pelo avesso: pela celebração de todas as vidas que já dividiram o mesmo chão. Fui escrever uma mensagem de aniversário para um primo e, sem pedir licença, o passado invadiu a mente. Lembrei de nós. Daquela nossa infância barulhenta e urgente, encenada no quintal da minha avó.Havia uma jabuticabeira imensa e, nela, um balanço improvisado com uma poltrona arredondada que meu tio construiu. Cabiam três crianças empoleiradas ali, espremidas entre o risco e a adrenalina de um voo curto. Naquele tempo, antes de a ala dos "temporões" nascer, éramos apenas oito netos orbitando ao redor de Dona Doquinha. Ela era o nosso sol: uma mulher de corpo imponente, braços gordos e acolhedores — daqueles que só as avós de verdade possuem —, dona de uma voz que conseguia ser firme, baixa e absurdamente suave, tudo ao mesmo tempo.Sua casa era uma típica construção mineira, com um alpendre na frente e um quintal que, aos olhos da nossa miopia infantil, não era um lote: era a própria Floresta Amazônica esperando para ser desbravada. Quando os oito se juntavam, o mundo vinha abaixo. Éramos todos profundamente ciumentos — e, para ser bem sincero, acredito que ainda somos. O bicho pegava quando vinham as netas "de fora" — Juju, Lolô e Cacá. O ciúme é um sentimento curioso na infância; a gente vigia o afeto como quem guarda um tesouro. Se já éramos possessivos com quem estava por perto no dia a dia, a chegada das estrangeiras desestabilizava o império.Nessa época de véspera de férias, a casa mudava de tom. Cheirava a cera em pasta. O chão era esfregado com escovão, num exercício hercúleo que exigia braço e paciência. Mas a recompensa vinha à tarde: o perfume da rosca da rainha, os biscoitinhos da Guiomar e, claro, o bolo de tabuleiro da minha avó. Até hoje eu procuro a receita exata daquele bolo e ninguém sabe me dar. Talvez porque eu não esteja procurando os ingredientes. O que eu procuro, na verdade, é o sabor daquela saudade. Quero a minha avó de volta, meus tios na cozinha e a algazarra das primas desembarcando em Campos Gerais.Vencida a barreira do ciúme inicial, a horta virava o nosso palco de brincadeiras. E, antes que o sol se pusesse, Dona Doquinha nos convocava para o café. A prioridade, obviamente, era das recém-chegadas — o ciúme, esse velho conhecido, assistia a tudo de camarote. Nós, os nativos que desfrutávamos daquela senhora de cabelos acinzentados diariamente, ficávamos para a segunda leva. Minha avó não era do tipo que sentava para contar histórias; esse papel lúdico cabia à minha tia, que comandava as brincadeiras, inventava enredos e recortava bandeirinhas de festa junina. Minha avó era o porto de escuta. A gente chegava com as nossas pequenas tragédias infantis, reclamava do mundo, e ela apenas ouvia. Depois, soltava sua sábia filosofia: "Nada como um dia após o outro". Ela levava nossos dramas tão a sério que entendia que só o tempo e a noite poderiam resolvê-los.Criança também sabe ser cruel na sua lógica maquiavélico. Lembro de um dia em que uma das primas de fora, levada pelo entusiasmo cego da infância, arremessou uma torneira de ferro antiga para o alto. A física, que não perdoa, fez o objeto desabar exatamente na cabeça da Marcela, a prima nativa. O caos estava instalado: sangue, chororô e uma coleção de pontos no couro cabeludo da coitada. Nós, os ciumentos donos da casa, não hesitamos em carimbar a culpa na visitante, ignorando a obviedade do acidente. Para uma criança, a palavra "acidente" simplesmente não existe no dicionário. O mundo se divide estritamente em dois lados: os culpados e os injustiçados.Hoje o Brasil estreia na Copa do Mundo. O futebol já não anda lá essas coisas, mas o espetáculo está garantido por quem vai sentar na mesa de um bar qualquer para bancar o técnico, o juiz, ditar a justiça e, claro, apontar os injustiçados de sempre. Hoje também é o aniversário daquele primo querido, um dos temporões que não chegou a tempo de desbravar a nossa "Amazônia" particular no quintal de Campos Gerais, mas que carrega o mesmo sangue e a mesma história.E, como o destino gosta de costurar coincidências, hoje é dia de Santo Antônio. Meu querido Tonho. Vejo essa obsessão contemporânea de mulheres que sequestram o Menino Jesus do colo do pobre santo para forçar um casamento e fico pensando na loucura disso. Deixem-me clarear uma coisa: o único santo que de fato casou foi São José. Portanto, se querem apelar para quem entende do assunto, roubem o menino do homem certo! Santo Antônio deve passar um aperto danado pensando na prestação de contas que terá que fazer à Mãe de Deus. E mãe, sejamos honestos, é bicho maluco. Uma mãe desesperada pelo sumiço do filho se colocaria na frente de qualquer sequestrador e exigiria ir no lugar dele. Nossa Senhora não faria diferente. Mãe é sempre mãe, seja no altar ou no quintal da nossa infância.Portanto, façam uma prece sensata para São José, deixem que ele resolva a sua solteirice e, por favor, deem um descanso para o Tonho. A vida já é complexa demais para encrencarmos com os santos.