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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Parnasianismo.


Gosto de listas. Elas organizam o caos que insistimos em chamar de rotina, embora a vida insista em transbordar pelas bordas. Se eu pudesse resumir meus dias em um manual de sobrevivência para a alma, ele seria feito de pequenos alívios e grandes ironias.Para os dias em que o peito aperta e a mente questiona o próprio sentido de estar aqui, dispenso os tarólogos: chamo Simone de Beauvoir para resolver a crise existencialista e deixo Clarice Lispector sussurrar como uma pessoa deve se comportar — sabendo que, no fundo, Clarice nos ensina justamente a desabar com elegância. Se a angústia persistir, Maria Bethânia canta a saudade e Maysa assume a trilha sonora da fossa. Porque sofrer faz parte, mas sofrer sem uma boa música de fundo é um desperdício de drama. Para o estresse do trânsito e dos boletos, a delicadeza de Ernesto Nazareth ao piano surte mais efeito que qualquer ansiolítico.A sobrevivência urbana também exige seus truques práticos. Contra gente chata, o frasco de Baygon deveria ser item obrigatório na bolsa. Para a ressaca moral ou literal, os maiores óculos de sol que você encontrar e um banho de água fria na cara inchada. Se o dia está corrido demais para o afeto de um bule inteiro, um cafezinho rápido e um cigarro na calçada resolvem o intervalo. Aliás, na pressa, a gente se perde. E tudo bem. Quem está muito perdido procura uma bússola; quem quer mesmo se encontrar, joga a bússola fora e se permite o luxo do descaminho.No fim das contas, o que nos salva são os outros. São as conexões que criamos para não enlouquecer. Para ser bem hospedada, bato na porta do Ricardo e do João. Para rir até a barriga doer, chamo Poliana e Vanessa. O Claudio é meu porto seguro: serve para tocar violão nas segundas e quartas, para o café sagrado depois da academia e, junto com a Elida e o Rodrigo — que por sinal faz o melhor yakisoba com vinho de cereal do mundo —, formam o comitê dos amigos de todas as horas. Para uma conversa densa sobre o Marquês de Sade, chamo o Alcântara. Para o almoço interminável de domingo, convido Sartre, sabendo que a comida vai esfriar enquanto discutimos a liberdade.A vida é esse mosaico de miudezas. É usar marca-texto para não ser apenas mais um na multidão, é saber que para o amor basta um beijo, para o sexo basta a camisinha e para um sábado perfeito bastam duas rodas e uma bicicleta sob o sol. O resto é protocolo para guardar no museu. No cotidiano que vivemos, o que importa mesmo é a coragem de abrir a janela e ter quem esperar do outro lado

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