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quarta-feira, 30 de julho de 2008

"De Um a Cem que importância tem?"


Está para nascer algo mais ridículo e previsível do que a fixação da sociedade pelo raio da idade. Seja em uma mesa de bar com amigos ou no balcão gelado de uma repartição pública, o assunto é sempre o mesmo. Parece existir um fetiche coletivo em tentar aniquilar a sanidade da maioria dos seres vivos dessa selva humana com base em um único dado: o ano de fabricação da pessoa. Já perceberam o quão degradante é ter que ficar repetindo quantos anos você tem?O pior é que a humanidade insiste nessa crueldade com uma naturalidade assustadora. Eles olham na sua cara e dizem, com a maior cara de pau do mundo: “Ué, que mal tem isso? Eu conto a minha tranquilamente!”. Parabéns para essas almas evoluídas, corajosas e iluminadas que assumem a idade com orgulho. Mas, para os fiscais da vida alheia que fazem a pergunta, o Congresso deveria votar urgentemente uma lei prevendo pena de morte ou, no mínimo, o exílio imediato para o Afeganistão ou a Faixa de Gaza.Perguntar a idade de alguém, além de ser um constrangimento público, é uma grave falta de educação — para não dizer um descaso absoluto com a dignidade humana. O tempo vivido importa apenas para quem o carrega, e para mais ninguém!A hipocrisia atinge o ápice quando mandam aquele elogio falso: “Nossa, mas você nem aparenta!”. No fundo, bem lá no fundo, a criatura está dando gargalhadas internas de alegria por ser mais nova, ou pensando que você está derradeiramente acabado e que o elogio é pura caridade.O duplo padrão social também é uma piada de mau gosto. Feliz do homem que assume os cabelos brancos: vira imediatamente "charmoso", "elegante" e "maduro". Já a mulher que decide deixar os fios naturais é condenada pelo tribunal social ao visual "Dona Benta", sentenciada a sentar em uma cadeira de balanço e tricotar até o fim da eternidade. Pintar as mechas não é esconder o tempo; é vaidade básica. Ficar careca não é atestado de velhice; é estilo de comportamento.Conheço gente que esconde tanto a idade que a própria mãe já esqueceu o dia do parto. Também já vi relacionamentos sólidos desmoronarem pelo simples peso de um número no RG. Dramático? Não. Realidade pura.Quando algum sem-noção tenta puxar esse assunto comigo, seja um burocrata do Estado ou um conhecido sem filtro, minha resposta é padrão: “Para que você quer saber a minha data de nascimento se não vai me mandar nem um cartão de aniversário?”.Aliás, no dia do meu aniversário, adoto um protocolo de sobrevivência infalível: tomo um Valium 5 mg — porque a indústria farmacêutica é a única que nos entende —, desligo o telefone e me tranco em casa. O recado na minha secretária eletrônica é curto e grosso: “Fomos abduzidos por naves espaciais e não há previsão de retorno”.Se você faz tanta questão de revirar o passado e comentar sobre a idade, aqui vai uma dica de ouro: reúna seus amigos — de preferência todos com o mesmo nível de desgaste cronológico —, escutem músicas da época, usem roupas antigas e debatam sobre as subcelebridades do século passado. Mas façam isso trancados, para que ninguém de fora presencie tamanha promiscuidade mental. Para garantir o sigilo, terminem a noite com um pacto de sangue. Ou melhor, um pacto de morte: ninguém sai vivo da casa, exceto você.Quer coisa melhor do que o seu segredo garantido e o seu sucesso de volta? Coisas assim, nem o Mastercard compra.

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