
Sempre achei de quinta categoria aquela cena de filme em que o sujeito fica sozinho na cozinha, de madrugada, sentado no chão fumando um cigarro. Deprimente? Ao extremo. Pois bem, mordo a língua: meu fim de semana foi exatamente esse roteiro de filme B. Se estivesse inspirado, diria que parecia algo dirigido por Mike Newell, com aquela luz melancólica de O Sorriso de Mona Lisa. Mas a verdade nua e crua é que estava mais para um capítulo histriônico de Maria do Bairro. Drama puro. De cortar os pulsos.Em meio ao caos, descobri utilidades inéditas na arquitetura doméstica. A banheira, por exemplo, vira uma excelente cama quando o trajeto até o quarto parece longo demais. Fiquei ali, num revezamento prático — e absolutamente nada elegante — entre o vaso sanitário e as bordas da banheira. A maioria das pessoas detesta vomitar, mas ali, no chão do banheiro, entendi que o corpo é sábio. Eu não estava apenas devolvendo excessos; estava expurgando o mundo. Cada espasmo levava embora a raiva acumulada em meus 1,75m de altura e aliviava uma cabeça que pesava uma tonelada, como se um elefante de carga tivesse pisado nela.A quem culpar? Ninguém. A culpa é sempre da nossa própria soberba em nos deixarmos levar por momentos raivosos. Passar mal, no fundo, é o corpo cobrando a conta da nossa indignação com os outros.Depois de horas nesse purgatório, a salvação veio em forma de Plasil na veia e um bom calmante. Não é a saída mais ortodoxa, confesso, mas o efeito é quase psicodélico: o mundo fica rosa, depois amarelo, ganha bolas coloridas e, finalmente, o apagão misericordioso. O problema é acordar no dia seguinte. E o pior: ter uma entrevista agendada numa rádio local para falar justamente sobre o que eu supostamente domino — cultura e comportamento humano. Como alguém consegue falar de elegância comportamental quando está em frangalhos? Não consegue. Mas o profissionalismo exige. O remédio foi uma caminhada matinal e litros de água para tentar trazer a alma de volta ao corpo.Para coroar o domingo, uma festa. E festas são perigosas porque sempre incluem "aquela" pessoa. Alguém que você não suportaria ver nem a quilômetros de distância, mas que decide surgir ao seu lado, gritando e querendo aparecer a qualquer custo. Falta de berço é um problema seríssimo. Diante da cafonice alheia, a única reação fina é a retirada estratégica. Voltei para casa, para o meu confidente de louça branca e para a banheira-cama. Minhas turbulências nunca são brisas, são tsunamis que devastam até os pensamentos.O resgate veio no fim do dia, cortesia de amigos finos que não suportavam me ver trancado cultivando o rancor. Fui raptado — com o meu consentimento, claro — para ajudar na arrumação do sítio deles. Se funcionou? Não sei. Só sei que trocar a raiva do mundo por uma semana espanando poeira e carregando caixas parece uma terapia bem mais barata. E assim, entre um expurgo e uma faxina, a vida continua
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